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terça-feira, 29 de março de 2011

Ontem, 70 anos da morte de Virginia Woolf

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Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali "Orlando?" Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultâneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá - valha-nos o céu- todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. De modo é que é a cois mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, Vem! Estou moralmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo, e necessitando de outro eu) Orlando?, o Orlando de que ela necessita não vir; essses eus de que somos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe pudermos prometer um copo de vinho - e assim por diante; pois cada pessoa pode multipilicar a sua própria experiência às diferentes condições que impões os seus diferentes eus- e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de forma.

Orlando



Eu não sabia o que era ter um autor até conhecer Virginia Woolf. O seu autor é uma escolha literária, mas também uma escolha tão inconsciente como se apaixonar. E ao mesmo tempo é constante como um parentesco. Posso gostar de muitos outros autores, mas na hora de escolher um autor e um livro, meu coração não hesita em dizer: Orlando, Virginia Woolf.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Carmen de Carlos Saura

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Se qualquer espetáculo já fica muito mais interessante quando temos um conhecido nele, imagine como é fazer parte do espetáculo. A melhor visão é sempre a das coxias, num sentido muito amplo: ver a coisa nascer e se desenvolver, as mudanças, a divisão dos papéis e até mesmo as rixas internas. Carlos Saura parece concordar comigo, porque ele adora fazer filmes sobre esse processo. Assim é o maravilhoso Ibéria (2005), uma verdadeira ode à cultura flamenca, e assim é o mais antigo Carmen (1983), inspirado na ópera de Bizet.

Como ele é inspirado na ópera, é um filme recomendável para quem a conhece. A amiga que me emprestou o filme não tinha visto a ópera Carmen e o descreveu como "uma história meio chata, uma mulher bem vagabundinha e cenas incríveis de sapateado". Para quem viu Carmen, o filme é um mosaico interessante, onde você procura se antecipar às cenas ou as encaixa na medida em que são representadas. O grande bailaor Antônio montará o espetáculo Carmen, e procura a mulher ideal para viver o papel. A ele pertence o papel de José. Nessa procura, ele conhece Carmen, uma bailaora inexperiente. Ela corresponde física e psicologicamente ao papel. À medida em que o espetáculo vai amadurecendo, os dois revivem dentro e fora dele a história de José e Carmen.

Para quem admira o flamenco, o filme fica especialmente bom pelos detalhes. As diversas cenas de canto e palmeo; os bailaores fazem exercícios, atravessam o palco com sapateados, há uma aula com castanholas, um momento dedicado apenas aos braceos. Carmen pede para Antonio seduzí-la, dançando uma farruca - uma das danças tipicamente masculinas. Há um confronto com martinete. Até os momentos em que eles terminam de ensaiar e deitam no chão me fazem pensar no quanto o flamenco maltrata a lombar... Numa cena, o elenco está comemorando um aniversário. O guitarrista começa uma canção, o cantaor corresponde, quem está por perto acompanha com palmas e as pessoas começam a bailar, brincando com os papéis da própria ópera - é a festa e espontaneidade que o flamenco possui na Espanha, como são as nossas rodas de samba.

Minha cena preferida é a da Tabacaria. A antagonista de Carmen nessa cena é uma das coreógrafas do espetáculo. Ela é superior à Carmen em todos os sentidos, e não foi escalada para o papel por não corresponder ao biotipo. Por profissionalismo ela ensina a rival, mas é uma tarefa amarga. Nesta cena, quando elas se encaram, sabemos que está no palco um antagonismo que transcendo os papéis. Ensaio e realidade se misturam. No final do confronto ficamos em dúvida se Carmen realmente a feriu. E assim são os espetáculos, os bons espetáculos: representações mentirosas de sentimentos de verdade.


quinta-feira, 24 de março de 2011

Intelectual, Foucault

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Sonho com o intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que localiza e indica nas inércias e nas coações do presente os pontos fracos, as brechas, as linhas de força; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou o que pensará amanhã, por estar muito atento ao presente; que contribui, no lugar de onde está, de passagem, a colocar a questão da revolução, se ela vale a pena e qual (quero dizer qual revolução e qual pena)

Foucault/ Microfísica do poder

segunda-feira, 21 de março de 2011

Viramundo

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Ao contrário do Charlles, que pegou uma birra assumida e decidiu ignorar a literatura brasileira, há alguns anos venho empreendendo o caminho contrário. Tenho feito um esforço consciente para ler os autores nacionais, e estendo esse esforço aos autores latino-americanos. Porque é a nossa cultura; saber mais da cultura dos outros não muda a nossa nacionalidade. Li muita literatura francesa mas e daí? Certas coisas são acessíveis apenas à eles, assim como muitas coisas são acessíveis apenas à nós. Outra grande vantagem disso é ler sem apelar para traduções. Escrever me fez entender melhor a importância de ler na língua original. Se passo tanto tempo me decidindo entre belo, bonito, agradável ou encantador, é porque cada uma dessas palavras expressa de mais maneira sutil ou mais próxima a idéia original. São detalhes que distinguem os autores, que criam impressões diferentes nas descrições. Existem até estudos que medem o grau de sinonímia das palavras, o que mostra que a substituição sempre perde algo.

Foi por isso, e tão somente por isso, que eu me propus a ler O grande mentecapto. Fernando Sabino, pra mim, era aquele autor do infeliz Zélia, uma paixão. Gostei tanto do Mentecapto que não pude deixar de me perguntar a mesma coisa que todos se perguntaram na época - Por que o Fernando Sabino se sujeitou a isso? Aquilo é tarefa pra um ghost writer qualquer e não um autor de verdade. Nunca li essa resposta, mas eu sei que deve ser um óbvio contas a pagar.

Era uma tarde de sábado, e ele estava deitado debaixo de uma mangueira no quintal de sua casa. Havia silêncio em tudo, pairando sobre as árvores e as coisas ao redor. O sino da igreja tinha acabado de bater. Então Geraldo Viramundo se apoiou nos cotovelos e estendeu o olhar, meio para longe, meio para cima. Centenas de vezes ele tinha estado ali, naquela mesma posição, era uma paisagem conhecida e tão familiar como o seu próprio modo de viver, que nela se completava. Mas naquele mesmo instante uma buzina de um automóvel soou na estrada, um boi mugiu no pasto, uma menininha de vermelho passava correndo lá longe, na ponte, um vento leve começou a sacudir a ramagem das árvores. O momento assim surpreendido parecia conter um significado qualquer que lhe escapava, e a que tudo se subordinava, como as notas de uma música. Geraldo Viramundo se sentiu mais só do que quando mergulhava no rio, mas era uma solidão feita de desamparo e saudades da infância - quando minutos mais tarde, se ergueu à caminhar pela casa, percebeu que não era menino mais.

Eu colocaria o Mentecapto como um livro picaresco, parente de Dom Quixote e Cândido. É um personagem louco e sábio, que anda pelo mundo e as coisas lhe acontecem de maneira inesperada e quase sempre positiva. É uma leitura leve, um livro que nos faz rir e não dá pra largar até terminar. Há também passagens sensíveis e memoráveis, como a que transcrevi acima. Li há alguns anos, e lembro muito pouco do que acontece com Viramundo. O que ficou foi a sensação de um personagem muito querido e um livro bem feito. Nem todos os autores são Faulkner, Capote ou Guimarães Rosa. Existem Sabino, Scliar, Telles. Pensar isso me faz bem, porque me lembra de que existem estágios até a genialidade. Isso não os torna dispensáveis. Eles não são gênios, mas ainda assim merecem nossa visita.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Decadência

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A sociologia entende que culturas vão e vem; que falar em decadência é, na realidade, a eleição de uma cultura e a pretensão de eternizá-la. Algo sempre fica decadente em relação à alguma coisa - então, como dizer o que é referência? Naturalmente, cada um escolherá como referência a cultura a qual pertence e a época que vive (ou viveu). Por isso a tendência de olhar para as gerações mais novas e achar que elas estão decadentes, assim como nossos pais diziam o mesmo quando éramos jovens. A religião parece trazer a idéia da decadência no seu cerne, porque elas geralmente surgem baseadas na figura de um lider carismático ou pouco após a sua morte. Esse lider se torna o marco zero, e à medida em que nos afastamos da época em que ele esteve presente, a decadência aumenta. A idéia de decadência funciona como alguém que anda olhando para trás.

Em alguns casos é difícil não pensar que estamos vendo uma decadência. Vejo as pessoas terem muita certeza disso no campo artístico, que parece ter entrado numa simplificação sem fim. Um exemplo bem claro é o da música. Pouca gente é louca de comparar a música clássica com a pop; falemos da música pop em relação a si mesma. Ainda ouvimos e cultuamos a música dos anos 70 e a música hoje é quase toda descartável. O problema é que os objetivos e a forma de produzir música mudaram. Ao contrário do conhecimento científico, que procura ser acumulativo, na arte a mudança não quer dizer superação, apenas diferença. Ainda ouvimos as obras do passado e gostamos; temos acesso às que permaneceram e por isso achamos que tudo naquela época era excelente. As obras atuais ainda não sofreram o filtro do tempo, estão próximas demais. Não tem como negar que a nossa música que se ouve hoje é realmente menos elaborada, em critérios melódicos. Ela está associada a outras formas de consumo e está muito ligada à imagem, aos videoclipes. Isso é melhor ou pior? Depende do critério...

Nos "costumes" encontramos a maior queixa de nossa decadência. Por costumes, geralmente podemos entender o comportamento sexual. Todos estaríamos mais libertinos. A liberdade sexual dos anos 60 teria nos levado ladeira abaixo; o modelo anterior não era perfeito mas pelo menos funcionava. Ou seja: a liberdade sexual ampla e às claras é assustadora. Não dá pra mensurar a quantidade de pessoas que burlavam essas regras, mas sabemos que elas existiam. Homens e mulheres não sabem mais qual comportamento é normal ou quantos parceiros uma pessoa saudável pode ter. O homossexualismo deixou de ser considerado uma doença. Essa dificuldade em encontrar respostas simples dá a alguns a sensação de decadência. Não que não houvesse liberdade sexual antes, mas ela estava restrita a um pequeno grupo: homens heterossexuais. A eles ter muitas parceiras não apenas não era negado como era estimulado, dentro e fora do casamento. Já para as mulheres, poucos parceitos, ou um único parceiro que não fosse o marido já prejudicava toda uma vida. Homossexuais estavam condenados a um sofrimento ainda maior do que o de hoje, onde pelo menos aceitamos que o desejo existe. O modelo anterior era mais preto no branco; justamente por isso, mais comportamentos eram considerados transgressores.

Apesar de todas as relativizações que fiz, eu acho que estamos decadentes. Eu não veria problema nenhum em subvertermos critérios, consumirmos mais, explorarmos a nossa sexualidade e tantas outras coisas que sairam do armário na nossa época, sem que ao menos tivessemos idéia de que havia um armário. Acho que qualquer coisa teria valido a pena se estivessemos mais felizes. Mas não estamos. Lembro de Durkheim, o pai da sociologia, que dizia que era perigoso quando o indivíduo se sentia apartado do todo. Ou de Bauman, que fala da nossa incapacidade cada vez maior de nos relacionarmos face a face. Por fim, de Boaventura, que nos alerta que a espera passiva pelo futuro não nos preparará para ele. Parece que entramos num ciclo destrutivo em que nada deve permanecer sólido e nos ressentimos por não termos onde segurar.

terça-feira, 15 de março de 2011

Uma história curta e triste

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Meu pai tinha um amigo, também engenheiro, que trabalhava com a esposa em uma usina nuclear. Parecia o emprego dos sonhos: eles tiravam férias quatros meses durante o ano, ganhavam muito mais do que a média salarial e se aposentariam cedo. Esse amigo se tornou o padrinho do meu irmão mais velho, o que me matava de inveja: além de eu não ter padrinho (meu irmão é o único filho batizado), o padrinho dele era legal e rico. Os filhos estudaram nos melhores colégios e herdei de uma das filhas o vestido rosa mais lindo que usei durante a minha infância. Lembro dele dirigindo um carro de câmbio automático em plenos anos 80. Meu pai teria ido trabalhar lá se pudesse. Mas o tempo se encarregou de mostrar que não havia nenhuma bondade do que a empresa lhe oferecia. A esposa do padrinho morreu muito jovem, provavelmente de câncer, e o corpo dele não demorou a sentir os efeitos. É como se ele tivesse envelhecido depressa. O carro de câmbio automático era porque ele, já aos quarenta anos, não tinha força no braço o suficiente pra dirigir um carro comum.

Eu me lembrei dessa história quando vi o desastre no Japão. Me sinto bem retratada no texto do Farinatti, então apenas os convido a lerem. Acho que ele expressa bem o sentimento diante do que está acontecendo lá, a ironia desse destino que os liga a desastres atômicos. Lembro também do texto do Charlles, testemunha ocular do que aconteceu em Goiânia no episódio do Césio 137. Ao mesmo tempo, as notícias nos mostram o comportamento exemplar do povo japonês. Em nenhum outro lugar do mundo veríamos essas coisas. São muitas lições a serem aprendidas num só episódio.

sábado, 12 de março de 2011

Progresso

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Em todos os países da Europa, é agora uma verdade que se pode demonstrar para toda mente despida de preconceitos, e que só pode ser negada por aqueles que estão interessados em iludir as pessoas, que nem o aperfeiçoamento das máquinas, nem a aplicação da ciência à produção, nem os artifícios da comunicação, nem a criação de novas colônias, nem a abertura de mercados, nem o livre-câmbio, nem todas essas coisas juntas abolirão a miséria das classes trabalhadoras; mas que, pelo contrário, com base nas falsas bases atuantes atualmente vigentes, todos os novos progressos das forças produtivas do trabalho tenderão a intensificar as discrepâncias sociais e aguçar os antagonismos sociais. A morte causada pela fome atingiu quase o nível de uma instituição, durante esta época de embriaguez com o progresso econômico, na metrópole do império britânico; Esta época está assinalada nos anais do mundo pelo retorno mais rápido, o âmbito mais extenso e os efeitos mais letais da praga social denominada crise comercial e industrial.

Marx, na 1º internacional comunista, em 1864
retirado do livro Rumo à estação Finlândia