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domingo, 19 de fevereiro de 2012

A música que passou a me irritar depois da minha pesquisa

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Eu adorava essa música e a versão que eu tenho é justamente a do clipe. A letra fala de uma cena que Alejandro Sanz teria testemunhado, de um deficiente visual que pede a uma moça para lhe descrever o pôr-do-sol. No final, quando ela se vai - depois da promessa de que retornaria no dia seguinte -, o rapaz perguntou ao Alejandro se ela era bonita, ao que ele lhe responde - Mais do que a lua.


Quem não tiver paciência pra ver o clipe pode conhecer a letra aqui.


Não é que a música seja horrivelmente preconceituosa ou forçada. Minha irritação com ela é muito mais por exagerar em algo mais banal. Talvez aí esteja o preconceito - em achar que estar apaixonado ou passar uma cantada é algo de extraordinário apenas por ter sido feita por alguém com deficiência.

Eu convivi com pessoas com diversos graus de deficiência visual - de visão residual à perda completa de visão - por causa de um serviço voluntário que mais tarde gerou a idéia pra uma pesquisa, o que me levou a conviver mais ainda com essa realidade. Aprendi a ultrapassar a barreira da pena ou do extraordinário. Para quem enxerga, parece inconcebível pensar num mundo sem a visão, e que isso lhe acontecesse, no resto da vida ela lhe faria falta. Pelo que ouvi de quem está nessa situação, não é verdade. Não enxergar, ter nos outros uma voz, uma presença e um cheiro, é algo que acostuma. Só com o preconceito que não se acostuma.

Então não consigo achar romântico quando o enamorado sem visão da música fala "mis ojos son tu voz", "a tu lado puedo olvidar que para mi siempre es de noche" e, pior - "que no daria yo por contemplarte, aunque sea un solo instante". Não veria essa pena de si mesmo, esse desejo de ser o que não é, de utilizar um sentido que não tem, como algo saudável. Das duas uma: ou isso fala de alguém que ainda não aprendeu a conviver com a sua condição, ou da projeção de alguém que enxerga e não consegue entender a vida de outra forma.

A parte final da música, quando o rapaz pergunta se a moça era bonita, é bastante familiar. Quem perde a visão faz isso com frequencia - de perguntar para os outros como uma pessoa é fisicamente. Por estarem interessados ou mera curiosidade. Se possível, consultam várias pessoas, pra ter um parecer ainda mais completo. O rapaz da música realmente parece encantado com a moça. Mas nisso também não há algo extraordinário. Quando convivi com homens que perderam a visão, eu não entendia a quantidade de cantadas que eles passavam. Bastava conversar com uma mulher um pouco mais gentil para as insinuações e perguntas começarem. Eles faziam o que a gente chama de "atirar para todos os lados".

No decorrer da minha pesquisa, a motivação pra isso ficou mais clara. As mulheres possuem uma tendência a cuidar muito de deficientes, mas essa relação tende para o materno. De um lado, isso é de grande ajuda; de outro, causa problemas quando um homem quer ser visto como tal. Isso sem falar que ser deficiente diminui bastante o "apelo" de alguém nas relações com o sexo oposto. Acredito que essa atitude de se colocar como homem disponível logo que interage com qualquer mulher, tem o objetivo de aproveitar todas as chances e de deixar claro para todos que lá há um homem, não apenas um deficiente.

São detalhes que mudam totalmente o sentido da música: um desejo de ver que não existe, um romance açucarado onde ele não existe. Não dá mais pra ouvir da mesma forma.


(Estou com um artigo quase pronto sobre o meu livro, a ser publicado em breve. Quando for, colocarei o link aqui. E quem quiser um exemplar do livro - autografado e mais barato -, é só falar comigo)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Análise de música popular

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Recebi o post da análise existencialista de uma música de Alexandre Pires e achei muito divertida. Claro que não é um tratado filosófico, e acho até chata a pressa que algumas pessoas têm em apontar todos os erros e incoerências do que lêem. As tentativas de pegar algo popular, ou de massa, ou cult e fazer disso análise filosóficas aproxima duas linguagens e não deve ser desprezada. Existem análises sobre os Simpsons, Star Trek, House, só para citar os que eu conheço.

Durante a faculdade, na matéria de Antropologia III, fomos convidados a encontrar um letra da música popular brasileira e fazer alguma análise sobre o conteúdo que havíamos estudado - Escola Sociológica Francesa e Lévi-Strauss. Transcrevo o que fiz na época. Nunca recebi esse trabalho de volta, por isso não sei o quanto a análise está boa ou não. Pelo menos serviu pra passar.


Vou mostrando como sou/ Vou sendo como posso- Durkheim foi o primeiro a apontar a diferença entre o ideal de sociedade (o que eu mostro) e como ela realmente é (o que eu sou). A diferença entre seu discurso, conceito sobre si mesma, e o que ela realmente pode nas suas práticas diárias. Levi-Strauss chama atenção para a questão do inconsciente. As motivações reais são ignoradas pelo próprio indivíduo, e até mesmo seu discurso é ilusório. Às vezes, a explicação que parece obvia pode ser a mais enganosa, por camuflar melhor a realidade. É a diferença entre a ordem do vivido e do concebido.

Essa contradição faz com que o etnólogo tenha que redobrar sua atenção para não se levar pelo discurso. Na pesquisa de campo, isso se reflete na necessidade de verificar várias vezes a mesma informação, de procurar um número grande de elementos. Isso pode gerar a questão: a sociedade elabora sobre si uma mentira?

Jogando meu corpo no mundo/ Andando por todos os cantos- Não. O discurso atua no campo das idéias, que de acordo com Levi- Strauss é sempre mais rico e é a matriz das atitudes. Ao jogar-se no mundo, andar por todos os cantos, ou seja, ao atuar, necessariamente as coisas são diferentes. O campo das idéias pode ser mais rico, mas o mundo possui maneiras de atuação particulares, que as diferenciam do discurso.

E pela lei natural dos encontros/ E deixo e recebo um tanto - Certas coisas são tão freqüentes nas sociedades humanas que podem até ser pensadas como “leis naturais”. Para Levi-Strauss, o tabu do incesto seria uma lei universal. A dádiva maussiana pode ser considerada uma lei natural? O fato de pessoas ou sociedades se encontrarem, e nesse encontro deixarem e receberem algo umas das outras. Esse trecho explicita a relação envolvida nas trocas, que nunca deixa iguais àqueles que nela se envolvem, seja...

Passo aos olhos nus/ Ou vestidos de lunetas- ... por uma simples troca de olhar, ou de vestimentas fantásticas. A construção do eu sempre se faz na alteridade, na comparação do que é semelhante do que não é. O conhecimento do outro é natural, porque o humano não pode jamais ser pensando sozinho, desligado da sua sociedade ou da cultura. E quanto mais distante ou desconhecido, mais fantástico e/ou temido o outro nos parece.

Passado, presente/ Participo sendo o mistério do planeta- Durkheim apontava que o caráter coercitivo dos fatos sociais estava no fato de serem, dentre outras coisas, anteriores aos indivíduos. Ao nascer, cada um encontra uma sociedade com uma história e uma forma de organização particulares. História esta que se faz presente em todos os que vivem na sociedade, na medida em que todos compartilham da mesma cultura.

Isso, no entanto, não retira do individuo sua particularidade. Nenhum individuo contém a totalidade da sua sociedade. A maneira como os diversos fatores externos influenciaram seu aparato interno, continua algo muito particular. Por isso, cada um continua sendo um mistério, com uma participação e essência próprias.

O tríplice mistério do estoque- Ao falar de estoque, podemos lembrar do estoque de inhame do chefe envolvido no kula. A forma de estocar, fazia parte da atribuição dentro do ritual da dádiva. Algumas vezes, este estoque era formado apenas para ser destruído de forma ritual. O estoque não existia por si ou para uma mera satisfação econômica, ele fazia parte de algo maior, somente explicado pelo contexto da dádiva. Se a entendermos como tríplice, este se refere às três obrigações que ela envolve: dar, receber e retribuir.

Que eu passo por e sendo ele/ No que fica em cada um- A dádiva não é apenas econômica, nem religiosa, nem ritualística, nem comercial ou estética; ela envolve todas essas esferas e muitas outras, o que a torna um fenômeno social total. Cada um passa pela dádiva e é ao mesmo tempo objeto da dádiva. Pelos conceitos de hau – a essencial da pessoa que fica com a coisa dada- e mana- a força que faz as coisas circularem- vemos que a dádiva não é uma simples troca de objetos. Ela é uma troca espiritual, pois cada um dá um pouco de si quando troca. E ao pensarmos que a dádiva envolve toda a sociedade, ela nos fala de uma troca entre culturas, sociedades e humanidades. A troca aproxima as pessoas e faz com que compartilhem a essência que lhes é comum.

No que sigo meu caminho/ E no ar que fez que assistiu- Os mitos, para Levi-Strauss, não podem ser analisados de modo estritamente funcional. Os mitos possuem origem em si mesmos, estão “no ar”. Eles só podem sofrer uma comparação com outros mitos, pois eles funcionam com uma lógica e caminhos próprios.

Abra um parênteses/ Não esqueça- Apesar do evidente papel da sociedade, na classificação, das regras, nas religiões, até mesmo atuando no corpo do individuo, não podemos esquecer que ...

Que independente disso /Eu não passo de um malandro/ De um moleque do Brasil- A sociedade é constituída por pessoas, e as estruturas não funcionam sozinhas. Embora determinada por muitos fatores e circunscrita pelos limites dados pela formação dada por sua sociedade, o individuo tem um espaço de ação, que usa de diversas maneiras. Algumas vezes, sua maneira de atuar pode se tornar manipuladora (bem destacado por Leach), ou “malandra”.

Que peço e dou esmolas- Ao dar e pedir esmolas ao mesmo tempo, há um reconhecimento que na dádiva todos irão dar e receber. Aquele que dá, encontra-se numa posição de superioridade, mas esta não se mantém eternamente. Como a dádiva por natureza implica em circulação, em algum momento o individuo terá de receber- e se encontrar numa posição menos favorável. Ao falar em esmolas, cabe lembrar, pode ser compreendida como um sacrifício/ dádiva oferecida aos deuses, pois aquele que a recebe não retribuirá a dádiva, papel que cabe ao divino. Como a pessoa da musica dá e pede esmolas, podemos considerar que ela faz e recebe coisas que só cabe ao divino retribuir.

Mas ando sempre/ Com mais de um/ Por isso ninguém vê/ Minha sacola- . Mesmo quando só, o individuo está acompanhado pela sociedade que o formou. E para haver troca, sempre precisa haver mais de um envolvido. O individuo é ex-centrico a si mesmo- seu centro encontra-se na sociedade. A “sacola”, por ser um objeto estritamente pessoal que acompanha sempre o indivíduo, por ser entendida como símbolo do eu ou do particular em cada um. Neste sentido, pela sacola nunca ser vista, podemos compreender que o indivíduo nunca é apenas um mero reflexo do todo, que a maneira como ele particulariza uma série de fatores o torna único e desconhecido.