Páginas

Mostrando postagens com marcador preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador preconceito. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Tão marcante que dói

6 comentaram
Comecei a ler Homem Invisível, de Ralph Ellison, um verdadeiro clássico sobre o preconceito racial. Logo no primeiro parágrafo do Prólogo, lamentei muito que ninguém que eu conhecesse na época do meu mestrado tivesse me recomendado o livro. Porque a definição que ele faz da sua invisibilidade cai perfeitamente com o conceito de estigma. Se não pudesse usar o livro todo, pelo menos usaria esse começo, nem que fosse apenas como uma Epígrafe.

Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibra e líquidos - talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem um corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação - na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu.
Minha invisibilidade também não é, digamos, o resultado de algum acidente bioquímico da minha epiderme. A invisibilidade à qual me refiro ocorre em função da disposição peculiar dos olhos das pessoas com quem entro em contato. Tem a ver com a disposição de seus olhos internos, aqueles olhos com que elas enxergam a realidade através dos olhos físicos. Não estou reclamando nem protestando. Às vezes é até vantajoso não ser visto, embora quase sempre seja desgastante para o sistema nervoso.
p.7

Com uma leitura tão interessante, fui logo para as páginas seguintes. E o que se seguiu no primeiro capítulo foi tão forte, doloroso e exagerado, que estou na dúvida se prossigo. Um grande livro, sem dúvida. Mas é daqueles que colocam o dedo na ferida, escancaram, não poupam o leitor. Não sei se quero, não sei se consigo.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Maldita inclusão digital?

0 comentaram
O “maldita inclusão digital” já virou uma expressão com vida própria. Ela é uma maneira rápida de mostrar desagrado diante de um texto mal escrito, uma montagem brega no youtube ou qualquer outra coisa que denuncie um gosto ou origem mais popular. Quem usa acha que disse tudo numa tacada só: reconhece algo mais popular quando o vê, sabe do recente aumento da capacidade de consumo, se declara como parte de uma classe que estava aqui muito antes e que lamenta a entrada de novos membros. O que ele consegue, na verdade, é ser preconceituoso.

Leia o resto aqui.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Jackie, a estripadora

8 comentaram

Agora saiu um livro dizendo que Jack, o Estripador pode ter sido uma mulher.

Jack, o estripador, não está mais tão em moda quanto era na minha infância. Eu vi vários documentários sobre ele, e todos eles apresentavam uma lista de suspeitos. Com os dados que eles forneciam, eu tentava adivinhar quem seria o Jack. Em nenhum desses documentários falaram em uma mulher, durante séculos ninguém jamais cogitou que pudesse ser uma mulher. É uma das formas que a desvalorização e o preconceito assume: de tornar algo impensável. Uma mulher jamais poderia ter sentimentos tão violentos. A violência concedida à mulher sempre foi a de tratar mal filhos, maridos, empregados. Mulheres gritam, choram, esperneiam, infernizam, nunca matam. Principalmente, uma mulher jamais poderia enganar a polícia - os homens da polícia - durante tanto tempo. Eles não poderiam imaginar uma mulher com a técnica que o Estripador tinha, e muito menos a capacidade de fazer o que fazia sem ser descoberto. Em resumo, uma mulher não poderia ser tão inteligente.

Homens não esperam violência das mulheres, que compraram a idéia e refrearam sua violência durante muito tempo. Mas o preconceito, ao diminuir a visibilidade, permite revoluções silenciosas, crescimentos insuspeitos e crimes sem solução. Como mulher, me senti um pouco vingada com a idéia de uma Jackie Estripadora.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

A música que passou a me irritar depois da minha pesquisa

2 comentaram
Eu adorava essa música e a versão que eu tenho é justamente a do clipe. A letra fala de uma cena que Alejandro Sanz teria testemunhado, de um deficiente visual que pede a uma moça para lhe descrever o pôr-do-sol. No final, quando ela se vai - depois da promessa de que retornaria no dia seguinte -, o rapaz perguntou ao Alejandro se ela era bonita, ao que ele lhe responde - Mais do que a lua.


Quem não tiver paciência pra ver o clipe pode conhecer a letra aqui.


Não é que a música seja horrivelmente preconceituosa ou forçada. Minha irritação com ela é muito mais por exagerar em algo mais banal. Talvez aí esteja o preconceito - em achar que estar apaixonado ou passar uma cantada é algo de extraordinário apenas por ter sido feita por alguém com deficiência.

Eu convivi com pessoas com diversos graus de deficiência visual - de visão residual à perda completa de visão - por causa de um serviço voluntário que mais tarde gerou a idéia pra uma pesquisa, o que me levou a conviver mais ainda com essa realidade. Aprendi a ultrapassar a barreira da pena ou do extraordinário. Para quem enxerga, parece inconcebível pensar num mundo sem a visão, e que isso lhe acontecesse, no resto da vida ela lhe faria falta. Pelo que ouvi de quem está nessa situação, não é verdade. Não enxergar, ter nos outros uma voz, uma presença e um cheiro, é algo que acostuma. Só com o preconceito que não se acostuma.

Então não consigo achar romântico quando o enamorado sem visão da música fala "mis ojos son tu voz", "a tu lado puedo olvidar que para mi siempre es de noche" e, pior - "que no daria yo por contemplarte, aunque sea un solo instante". Não veria essa pena de si mesmo, esse desejo de ser o que não é, de utilizar um sentido que não tem, como algo saudável. Das duas uma: ou isso fala de alguém que ainda não aprendeu a conviver com a sua condição, ou da projeção de alguém que enxerga e não consegue entender a vida de outra forma.

A parte final da música, quando o rapaz pergunta se a moça era bonita, é bastante familiar. Quem perde a visão faz isso com frequencia - de perguntar para os outros como uma pessoa é fisicamente. Por estarem interessados ou mera curiosidade. Se possível, consultam várias pessoas, pra ter um parecer ainda mais completo. O rapaz da música realmente parece encantado com a moça. Mas nisso também não há algo extraordinário. Quando convivi com homens que perderam a visão, eu não entendia a quantidade de cantadas que eles passavam. Bastava conversar com uma mulher um pouco mais gentil para as insinuações e perguntas começarem. Eles faziam o que a gente chama de "atirar para todos os lados".

No decorrer da minha pesquisa, a motivação pra isso ficou mais clara. As mulheres possuem uma tendência a cuidar muito de deficientes, mas essa relação tende para o materno. De um lado, isso é de grande ajuda; de outro, causa problemas quando um homem quer ser visto como tal. Isso sem falar que ser deficiente diminui bastante o "apelo" de alguém nas relações com o sexo oposto. Acredito que essa atitude de se colocar como homem disponível logo que interage com qualquer mulher, tem o objetivo de aproveitar todas as chances e de deixar claro para todos que lá há um homem, não apenas um deficiente.

São detalhes que mudam totalmente o sentido da música: um desejo de ver que não existe, um romance açucarado onde ele não existe. Não dá mais pra ouvir da mesma forma.


(Estou com um artigo quase pronto sobre o meu livro, a ser publicado em breve. Quando for, colocarei o link aqui. E quem quiser um exemplar do livro - autografado e mais barato -, é só falar comigo)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Preconceito

3 comentaram
O difícil em lidar com preconceitos é que eles se revestem de informações antigas, que por sua vez se misturam com outros preconceitos, premissas religiosas, suposições psedo-científicas e interpretações maldosas de diferenças culturais. O preconceituoso se apegará a essas coisas para justificar os seus sentimentos e dificilmente permitirá uma crítica das suas posições. Dá vontade de mostrar para ele quando tudo começou - como seria mostrar para um preconceituoso um quadro onde a história não tornou o oprimido fraco demais para conseguir se defender? Estabelecidos e Outsiders, de Elias & Scotson, tem o mérito de conseguir o que parecia ser impossível: detectar um preconceito no seu nascimento, e mostrar que a vontade de segregar é que nos faz enxergar diferenças e não o contrário.

O livro acompanha a ocupação de duas áreas residenciais na Inglaterra. Os moradores das duas áreas tinham tudo para se enxergarem como iguais: mesma nacionalidade ou raça, mesmas profissões e faixas salariais, mesmo nível cultural. Mas eles não se enxergavam assim. Como um dos bairros era de ocupação mais antiga, eles já tinham formado de si uma idéia de comunidade. A vizinhança já se conhecia e formava uma rede de apoio mútua. Eles eram os bons. No bairro de ocupação recente as pessoas ainda não se conheciam. A falta de uma relação mais forte entre os vizinhos os tornou vítimas frágeis da rede de fofocas do outro bairro. Em pouco tempo eles se tornaram os ruins.

O que acontece a partir daí é emblemático: a maneira como os bons se viam se torna a maneira oficial de ver a situação. Primeiro porque não havia outra maneira de pensar; depois, quando seria possível criar outra corrente de pensamento, ela já havia contaminado o outro bairro e se tornado hegemônica. Os moradores do bairro dito ruim em pouco tempo passaram a aceitar a idéia de que eram realmente inferiores. O que havia de positivo no bairro bom servia de exemplo da sua superioridade; qualquer comportamento desviante na região ruim era generalizado e ajudava a piorar sua fama. Junto com a evolução desse caso prático, Elias & Scotson resgatam outras formas de preconceito, colocam em discussão a maneira como se formaram, a dificuldade de criar uma nova forma de pensar e sair do papel de vítima. O livro argumenta que até preconceitos que atribuímos à diferenças físicas evidentes, como a cor da pele, não nascem da própria diferença. A eleição das características que dão origem a um preconceito pode variar (físicas, religiosas, sexuais, tradicionais, etc); o que não muda é utilização dessa diferença para criar uma superioridade sobre outros.