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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Veronese - um quadro em julgamento

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Vi esse programa há muitos anos. Mais do que a avalição de um quadro específico, ele ensina a olhar a arte de maneira diferente, entender as diferentes tecnicas empregadas para chegar a certos efeitos, e até que ponto o pintor atingiu seus objetivos. Entender as dificuldade técnicas, ao invés de desmistificar, aumenta ainda mais a nossa admiração pelos grandes mestres.


terça-feira, 20 de dezembro de 2011

As emblemáticas mulheres de Mad Men III

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* Contém spoilers

Peggy

Ela diz para si mesma que quer casar, como qualquer outra moça da sua idade. Só que ela tem feito de tudo para evitar que isso realmente se concretize. Não sabemos até que ponto ela é consciente disso, apenas sabemos que ela deixa as oportunidades passarem - ou se livra delas - cada vez que precisa fazer uma escolha. Foi assim com a gravidez que levou em segredo, foi assim com o namoro sério que estava tendo com Mark. A série começa com a chegada de Peggy à Sterling Cooper, para ocupar o cargo de secretária de Don. É através dela que passamos a conhecer os personagens e aquele mundo pouco a pouco nos é revelado. O senso de oportunidade e a inteligência fazem com que Peggy rapidamente deixe de ser uma simples secretária e se torne braço direito de Don. Não é exagero dizer que ela é a versão feminina dele, que também é dela que a série se trata.

Peggy é um patinho feio. Ela não apenas não chama atenção pelos seus atributos físicos como se veste e se comporta de maneira recatada. Alguns tentam ajudá-la, ao dizer que uma mulher precisa estar bonita e feminina para vencer; outros, mais cruéis, a chamam de nazista, fria, feia, recalcada, old fashion. Quando ouve de alguém que é atraente, Peggy duvida. Suas maneiras mais recatadas combinam com sua origem suburbana e católica, com a qual ela tem uma relação conflituosa. Mas também são uma escolha, uma estratégia para lidar com o machismo a sua volta. Peggy quer ser vista como uma profissional e sabe que papel os homens com quem convive esperam das mulheres. Ao se tornar a primeira mulher redatora, ela rompe com todas as expectativas a seu respeito. Ela deixa de pertencer ao mundo das mulheres e não é vista como homem. Isso a torna detestada pelos dois grupos. A saída para lidar com esse ambiente hostil é ser ainda mais competente, trabalhar mais do que qualquer um à sua volta, ser mais rigorosa do que todos os seus colegas. Os outros podem aproveitar; ela tem consciencia da fragilidade da sua posição. Mesmo com todo esse cuidado, atribuem sua promoção ao fato de ter dormido com Draper. Ele a vê como uma amiga e uma extensão de si mesmo; ela não consegue deixar de se sentir pouco atraente por ele jamais ter tentado alguma coisa a mais.

De todas as mulheres da série, Peggy é que encarna melhor os conflitos que se tornariam comuns às mulheres atuais. Ela valoriza o modelo tradicional da feminilidade, que espera que as mulheres sejam bonitas, uma beleza buscada em função de ter valor para os homens. Só que um dos atributos dessa feminidade é a capacidade de ficar atrás - a grande mulher está sempre atrás do grande homem, nunca ao lado e muito menos à frente. Ao recusar esse papel secundário, Peggy sente que comprometeu também sua feminilidade. Ela não quer escolher entre respeito profissional e afeto. Na falta de um modelo que abarque as duas coisas, Peggy acaba desbravando novos caminhos. Gradualmente, abandona os valores da sua família, mesmo depois de ter tentado com sinceridade voltar a frequentar a igreja. Ela se muda para Manhattan com a justificativa de que fica mais fácil ir ao trabalho, mas a verdade é que ela quer ser diferente, ela quer muito mais. Mesmo ambiciosa, ela é uma das poucas que não está disposta a tudo para subir, que não usa as pessoas. Com os homens, ela faz sexo por amor ou por diversão, jamais por interesse.

Nas quatro temporadas, ela é o personagem que mais se modificou. Ela inicia a série caipira, inadequada, grávida de uma relação ocasional. À medida que avança, ela se torna capaz de absorver e aproveitar as oportunidades que aparecem. Mesmo mantendo o estilo discreto, ela passou a se vestir melhor. Quando sua posição profissional fica mais consolidada, ela se tornou menos rígida e se mostrou à altura de lidar com o machismo dos colegas. Seu jeito sério aliado à vontade de conhecer o novo renderam momentos engraçados, como quando pede para experimentar maconha ou trabalha nua ao lado de um colega que a acusa de repressora. Peggy se torna cada diz mais interessante e inesperada. Ela pode se tornar uma ambiciosa publicitária assim como pode continuar uma das poucas pessoas éticas da série, quase um símbolo. Só o desenrolar da trama responderá.


sábado, 17 de dezembro de 2011

As emblemáticas mulheres de Mad Men II

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* Contém spoilers

Joan

Assim como Betty, a primeira coisa que chama atenção em Joan é sua beleza. Mas enquanto Betty tem uma beleza clássica, delicada, Joan transpira sensualidade. Seus seios enormes não permitiriam uma mulher passar desapercebida, e Joan não quer passar desapercebida - ela tem consciência do seu poder e faz questão de usá-lo. Num local onde as mulheres só ocupam funções tradicionais de apoio - secretárias, recepcionistas, datilógrafas, etc - e onde a subserviência profissional se mistura à sexual, era claro que uma mulher tão provocante seria amante de alguém. Em pouco tempo, descobrimos quem é o privilegiado: Roger Sterling, o homem mais poderoso do escritório, um dos donos da agência. Joan escolheu um homem proporcional ao preço que tem.

A partir daí é possível perceber que Joan usa o sexo como moeda de troca, que usa a aparência a seu favor. Ela é uma das personagens mais misteriosas de Mad Men; nada sabemos sobre sua origem ou sua família. Quando a série começa, Joan já é uma mulher segura, ciente das regras, sem ilusões a respeito do mundo machista em que vive. Não sabemos de onde ela tirou tanto know-how, podemos apenas adivinhar que um dia ela também já foi ingênua. Com outras mulheres, sua atitude é agressiva e competitiva, até mesmo maldosa. Ela não apenas não é amiga de ninguém, como é incapaz de acreditar nas boas intenções delas. É sempre com os homens que ela mostra seu lado benevolente; deles, espera que cedam com facilidade a qualquer pedido seu. Ela nunca é incisiva, sempre insinuante. Ela representa que o poder que as mulheres sempre tiveram nos bastidores, entre amantes, nos pedidos sussurrados ao pé do ouvido. É um poder que não consta em memorandos, que não pode ser declarado publicamente e nem fica registrado em biografias. O que não quer dizer que não seja eficiente.

Só que esse recurso feminino às vezes se volta contra a própria Joan, que tem dificuldade em ser levada à sério. Ela é competente e organizada no que faz, e possui grande habilidade interpessoal. Ela atua tão bem nos bastidores que seu trabalho custa a ser reconhecido. Sua aparência serve de desculpa para desmerecerem o que ela faz, como se por trás não houvesse dedicação e trabalho duro. Isso fica bastante claro quando ela ajuda informalmente no fortalecimento do recém-criado Departamento de Televisão. Nesse curto período, leva lê roteiros em casa, tem idéias, ajuda a conquistar os clientes. Quando sua função se torna importante demais para ser informal, criam um cargo e contratam um homem, para que ela possa "voltar a cuidar das suas coisas". O mais espantoso nesse episódio é que não passa pela cabeça de nenhum dos envolvidos que a própria Joan gostaria de continuar na função. Mais de uma vez ela declara não sonhar em subir, como Peggy fez; ao mesmo tempo, a vemos ressentida por ser continuamente deixada para trás. Talvez mais do que não querer, Joan não acredita.

Se à primeira vista Joan parece uma mulher moderna, com o passar do tempo passamos a perceber que isso é apenas uma fachada. Pensando bem, conseguir as coisas através do sexo é uma estratégia antiga. Ela não apenas não busca outra maneira de fazer as coisas, como parece se irritar quando alguém o faz. Sua relação com Peggy demonstra esse conflito. Todas as vezes que Peggy tenta defendê-la, inclusive demitindo um funcionário que a desautorizava por vê-la apenas como mulher objeto, Joan desmerece, ironiza - "Se eu quisesse que ele fosse demitido, conseguiria isso com um jantar". Ela não parece aceitar ou acreditar em outras formas de poder feminino, que a relação entre homens e mulheres não seja intermediada por sexo. Quando consegue um bom partido disposto a casar com ela, Joan rapidamente adota uma postura tradicional: tenta esconder seu passado, se propõe a deixar de trabalhar, pára de evitar a gravidez. Todos os seus recursos, no fim, tinham o objetivo de torná-la uma mulher respeitável.



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As emblemáticas mulheres de Mad Men I

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A série Mad Men, ambientada nos anos 60, gira em torno da figura de Don Draper e o mundo da publicidade. É um meio machista, um ambiente de trabalho onde as mulheres servem os homens sexualmente e/ou como secretárias. Em meio àqueles homens poderosos, é possível perceber as estratégias de poder permitidas às mulheres da época. Elas não podiam aspirar os mesmos cargos que eles, o que não quer dizer que não possuíam sua própria maneira de influenciar nas decisões. Aqui destacarei alguns dos caminhos escolhidos pelas mulheres retratadas na série. Para quem não assistiu Mad Men, quer assistir e não gosta de spoilers, recomendo não prosseguir na leitura.


Betty

Impossível não olhar para Betty sem admiração, sem reparar o quanto ela é linda. Para quem assiste a série de olho no visual, nos penteados e nas roupas, Betty representa o que há de mais bonito no período. Ela usa os melhores vestidos, tem o cabelo impecável, e até mesmo sua maneira de fumar é charmosa. Ela não é apenas um ideal de beleza, como representa um ideal de mulher. Bem nascida, foi mimada pelos seus pais para ser uma boneca. Como esposa de Don Draper, contribuía para formar dele a imagem de homem de sorte e bem sucedido, por ter ao seu lado uma mulher que se mantém linda apesar de já ter filhos, que mesmo diante das crises sempre sabe se portar com discrição. É esse encanto que a torna desejada por todos que a conhecem, que permitem que ela obtenha o que quer sem ter que fazer esforço. Ela é "mulher pra casar"

Só que por detrás de toda essa imagem de perfeição, logo no início da série ela nos é apresentada como uma mulher angustiada por algo que ela mesma desconhece. Para quem esta de fora, é fácil identificar o motivo: Betty leva uma existência vazia. A inveja incontida que ela tem na desquitada da vizinhança, sua solidão, seu desejo de ser admirada, mostram a decepção que ela sente com o papel que lhe é reservado. A solução para isso é mandá-la a um psiquiatra, porque sua insatisfação parece sem sentido. O que mais uma mulher poderia desejar, além de um casamento próspero e filhos? Ela tampouco está disposta a questionar a vida que leva. A tentativa de lidar com suas angústias a levam a tentar novamente a carreira de modelo (para desistir rapidamente) e flertar com a idéia de trair Don. Ela provoca sutilmente os homens, mas não ultrapassa os limites, porque o papel de mulher perfeita também lhe é muito caro.

O casamento de Betty com Don nunca foi satisfatório, embora ambos tenham demorado pra se conscientizar disso. Ele sempre a traiu, com mulheres fortes e independentes, totalmente diferentes de Betty. Ela, por outro lado, parecia projetar todas as suas necessidades nele, e agia como uma criança que só faz o que quer. O sucesso financeiro de Don permitiu a Betty ter toda aparência que sempre quis; mas descobrir sua traição e sua verdadeira origem (muito pior do que ela poderia imaginar), destruíram esse pacto de maneira irremediável. Somente a partir daí ela consegue se sentir livre para buscar outro homem (e não outra alternativa). Graças a Henry Francis, ela consegue pular de um casamento a outro sem passar pelas dificuldades financeiras e falta de prestígio do desquite. Só que Henry, ao contrário de Don, é um homem mais velho e mais bem resolvido. Ele não demora a perceber que casou com uma mulher mimada e incoerente. Somente ao se casar de novo ela parece perceber que o problema não era Don e sim que o que ela busca não existe.

A pessoa difícil por detrás da aparência de perfeição fica muito clara na relação que Betty tem com os filhos, especialmente com a filha. Ela sempre foi intolerante e agressiva diante de qualquer desobediência, como se não suportasse que algo fosse diferente do esperado. Ela tenta recriar com Sally, sua filha mais velha, o mesmo ideal de comportamento e beleza que recebeu de seus pais. Só que o temperamento forte da filha prejudicam cada vez mais os seus projetos, o que torna a relação entre as duas uma guerra silenciosa, onde Sally sempre sai perdendo. É de cortar o coração ver a angústia de menina, visível a todos que a cercam, mas que não pode ser impedida porque tem como fonte sua própria mãe. É na filha que Betty demonstra toda insatisfação, toda agressividade que ela reprime. Ser uma mulher perfeita tem seus custos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Análise de música popular

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Recebi o post da análise existencialista de uma música de Alexandre Pires e achei muito divertida. Claro que não é um tratado filosófico, e acho até chata a pressa que algumas pessoas têm em apontar todos os erros e incoerências do que lêem. As tentativas de pegar algo popular, ou de massa, ou cult e fazer disso análise filosóficas aproxima duas linguagens e não deve ser desprezada. Existem análises sobre os Simpsons, Star Trek, House, só para citar os que eu conheço.

Durante a faculdade, na matéria de Antropologia III, fomos convidados a encontrar um letra da música popular brasileira e fazer alguma análise sobre o conteúdo que havíamos estudado - Escola Sociológica Francesa e Lévi-Strauss. Transcrevo o que fiz na época. Nunca recebi esse trabalho de volta, por isso não sei o quanto a análise está boa ou não. Pelo menos serviu pra passar.


Vou mostrando como sou/ Vou sendo como posso- Durkheim foi o primeiro a apontar a diferença entre o ideal de sociedade (o que eu mostro) e como ela realmente é (o que eu sou). A diferença entre seu discurso, conceito sobre si mesma, e o que ela realmente pode nas suas práticas diárias. Levi-Strauss chama atenção para a questão do inconsciente. As motivações reais são ignoradas pelo próprio indivíduo, e até mesmo seu discurso é ilusório. Às vezes, a explicação que parece obvia pode ser a mais enganosa, por camuflar melhor a realidade. É a diferença entre a ordem do vivido e do concebido.

Essa contradição faz com que o etnólogo tenha que redobrar sua atenção para não se levar pelo discurso. Na pesquisa de campo, isso se reflete na necessidade de verificar várias vezes a mesma informação, de procurar um número grande de elementos. Isso pode gerar a questão: a sociedade elabora sobre si uma mentira?

Jogando meu corpo no mundo/ Andando por todos os cantos- Não. O discurso atua no campo das idéias, que de acordo com Levi- Strauss é sempre mais rico e é a matriz das atitudes. Ao jogar-se no mundo, andar por todos os cantos, ou seja, ao atuar, necessariamente as coisas são diferentes. O campo das idéias pode ser mais rico, mas o mundo possui maneiras de atuação particulares, que as diferenciam do discurso.

E pela lei natural dos encontros/ E deixo e recebo um tanto - Certas coisas são tão freqüentes nas sociedades humanas que podem até ser pensadas como “leis naturais”. Para Levi-Strauss, o tabu do incesto seria uma lei universal. A dádiva maussiana pode ser considerada uma lei natural? O fato de pessoas ou sociedades se encontrarem, e nesse encontro deixarem e receberem algo umas das outras. Esse trecho explicita a relação envolvida nas trocas, que nunca deixa iguais àqueles que nela se envolvem, seja...

Passo aos olhos nus/ Ou vestidos de lunetas- ... por uma simples troca de olhar, ou de vestimentas fantásticas. A construção do eu sempre se faz na alteridade, na comparação do que é semelhante do que não é. O conhecimento do outro é natural, porque o humano não pode jamais ser pensando sozinho, desligado da sua sociedade ou da cultura. E quanto mais distante ou desconhecido, mais fantástico e/ou temido o outro nos parece.

Passado, presente/ Participo sendo o mistério do planeta- Durkheim apontava que o caráter coercitivo dos fatos sociais estava no fato de serem, dentre outras coisas, anteriores aos indivíduos. Ao nascer, cada um encontra uma sociedade com uma história e uma forma de organização particulares. História esta que se faz presente em todos os que vivem na sociedade, na medida em que todos compartilham da mesma cultura.

Isso, no entanto, não retira do individuo sua particularidade. Nenhum individuo contém a totalidade da sua sociedade. A maneira como os diversos fatores externos influenciaram seu aparato interno, continua algo muito particular. Por isso, cada um continua sendo um mistério, com uma participação e essência próprias.

O tríplice mistério do estoque- Ao falar de estoque, podemos lembrar do estoque de inhame do chefe envolvido no kula. A forma de estocar, fazia parte da atribuição dentro do ritual da dádiva. Algumas vezes, este estoque era formado apenas para ser destruído de forma ritual. O estoque não existia por si ou para uma mera satisfação econômica, ele fazia parte de algo maior, somente explicado pelo contexto da dádiva. Se a entendermos como tríplice, este se refere às três obrigações que ela envolve: dar, receber e retribuir.

Que eu passo por e sendo ele/ No que fica em cada um- A dádiva não é apenas econômica, nem religiosa, nem ritualística, nem comercial ou estética; ela envolve todas essas esferas e muitas outras, o que a torna um fenômeno social total. Cada um passa pela dádiva e é ao mesmo tempo objeto da dádiva. Pelos conceitos de hau – a essencial da pessoa que fica com a coisa dada- e mana- a força que faz as coisas circularem- vemos que a dádiva não é uma simples troca de objetos. Ela é uma troca espiritual, pois cada um dá um pouco de si quando troca. E ao pensarmos que a dádiva envolve toda a sociedade, ela nos fala de uma troca entre culturas, sociedades e humanidades. A troca aproxima as pessoas e faz com que compartilhem a essência que lhes é comum.

No que sigo meu caminho/ E no ar que fez que assistiu- Os mitos, para Levi-Strauss, não podem ser analisados de modo estritamente funcional. Os mitos possuem origem em si mesmos, estão “no ar”. Eles só podem sofrer uma comparação com outros mitos, pois eles funcionam com uma lógica e caminhos próprios.

Abra um parênteses/ Não esqueça- Apesar do evidente papel da sociedade, na classificação, das regras, nas religiões, até mesmo atuando no corpo do individuo, não podemos esquecer que ...

Que independente disso /Eu não passo de um malandro/ De um moleque do Brasil- A sociedade é constituída por pessoas, e as estruturas não funcionam sozinhas. Embora determinada por muitos fatores e circunscrita pelos limites dados pela formação dada por sua sociedade, o individuo tem um espaço de ação, que usa de diversas maneiras. Algumas vezes, sua maneira de atuar pode se tornar manipuladora (bem destacado por Leach), ou “malandra”.

Que peço e dou esmolas- Ao dar e pedir esmolas ao mesmo tempo, há um reconhecimento que na dádiva todos irão dar e receber. Aquele que dá, encontra-se numa posição de superioridade, mas esta não se mantém eternamente. Como a dádiva por natureza implica em circulação, em algum momento o individuo terá de receber- e se encontrar numa posição menos favorável. Ao falar em esmolas, cabe lembrar, pode ser compreendida como um sacrifício/ dádiva oferecida aos deuses, pois aquele que a recebe não retribuirá a dádiva, papel que cabe ao divino. Como a pessoa da musica dá e pede esmolas, podemos considerar que ela faz e recebe coisas que só cabe ao divino retribuir.

Mas ando sempre/ Com mais de um/ Por isso ninguém vê/ Minha sacola- . Mesmo quando só, o individuo está acompanhado pela sociedade que o formou. E para haver troca, sempre precisa haver mais de um envolvido. O individuo é ex-centrico a si mesmo- seu centro encontra-se na sociedade. A “sacola”, por ser um objeto estritamente pessoal que acompanha sempre o indivíduo, por ser entendida como símbolo do eu ou do particular em cada um. Neste sentido, pela sacola nunca ser vista, podemos compreender que o indivíduo nunca é apenas um mero reflexo do todo, que a maneira como ele particulariza uma série de fatores o torna único e desconhecido.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Morte e cegueira

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Não sou uma grande leitora de Saramago. Tentei várias vezes ler Memorial do Convento, até que me convenci de que o livro não me conquistaria. No Evangelho Segundo Jesus Cristo não cheguei até o fim. Não é que o livro não seja interessante, o problema é o tema. Li para saber porquê de tanto escândalo sobre o seu conteúdo. À medida que a história - verossímil e bem construída - avançava, me dei conta de que a figura de Jesus me interessa tão pouco que o livro não me valia só pela polêmica. O que li com profundidade porque citei na minha dissertação foi Ensaio sobre a cegueira. E agora, As intermitências da morte.

Esses dois livros começam com um argumento em comum, com um questionamento simples levado às últimas consequencias: e se de repente ficássemos todos cegos? E se de repente as pessoas parassem de morrer? E é assim que os livros começam, logo no primeiro parágrafo de Intermitências e no segundo de Ensaio:

No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nem nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequente em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia.

***
O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecanico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

Ao contrário da cegueira, que é encarada como um mal assim que surge, a morte revela sua importância à medida que se faz cada vez mais ausente. Nos dois fenômenos, a mesma falta de explicação. E mesmo se levantadas algumas explicações - vírus, greve, castigo? - elas não esclarecem nada, porque diante de calamidades as explicações pouco importam. A visão é o sentido que nos faz perceber as coisas à distância, a capturar a informação que está distante; de maneira semelhante, o Ensaio sobre a cegueira fala pouco de um quadro amplo, que é muito mais imaginado. Ele conta como a cegueira atinge uns poucos personagens, que são trancafiados e têm suas vidas transformadas; o conhecimento deles apenas nos deixa adivinhar o que a epidemia está fazendo aos outros. No caso da morte, ela é um problema coletivo, e o livro narra o que se passa em esferas governamentais. A ausência da morte interfere em questões de segurança nacional, na autoridade, na economia e no bom funcionamento das instituições.

Nos dois casos, a organização social entra em colapso. É preciso, antes de tudo, ser pragmático; o homem em crise é um outro homem. A necessidade de sobreviver ao extraordinário revela o lado feio das relações humanas. Surgem então novas regras, novas forças, novas organizações. Os que já eram cegos passam a ter vantagem sobre aqueles que acabaram de perder a visão, e usam desse poder para obter regalias e controle sobre as mulheres (para muitos, o momento mais pesado do livro). O governo do país que não morre se vê amordaçado por anônimos se organizam no controle da morte, que se torna uma mercadoria à medida que não pode ser obtida naturalmente. Nos dois livros, Saramago parece nos dizer que o que somos é frágil e contingente; qualquer alteração no que estamos acostumados pode destruir séculos de civilização. E o que está por detrás dessa civilização é egoísta e violento.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Tatuagem versus todo o resto

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O discurso da tatuagem é da extrema personalização. Cada corpo tatuado se transformaria num corpo único, que reflete através dos desenhos a personalidade do seu dono. Pois é ele quem escolhe a figura, as cores, as dimensões, a localização. Por isso, um corpo tatuado nunca seria igual ao outro, ele diria algo que o corpo em branco não teria. Ele contaria uma história através de seus desenhos. As desbotadas ou cujo tema não se parecem mais com o dono, mostrariam o que um dia foi importante para ele e o que estava vivendo naquele momento. Outras seriam para sempre recentes - através de seus retoques - e diriam quem a pessoa é, seriam verdadeiros símbolos dos seus donos. Chega um certo ponto em que a pessoa não pode mais ser dissociada das tatuagens que ostenta. A tatuagem seria, assim, reflexo da vontade de ser único e demarcar no corpo o que há de singular em cada um.

Ao mesmo tempo, a própria popularização das tatuagens depõe contra essa idéia. Os estúdios de tatuagem não param de surgir e é cada vez maior o número de pessoas que procuram fazer um desenho definitivo no corpo. São diversas faixas etárias - adolescentes que insistem com seus pais para fazerem tatuagem antes da maioridade, adultos e até mesmo pessoas mais velhas que querem também ter uma marca. Os desenhos têm se tornado cada vez maiores, e dizem que tatuagem vicia, que fazer uma dá vontade de fazer outra e mais outra; muitos têm o objetivo de se tornar um quadrinho humano. Quando eu era criança, ouvia falar que os japoneses compravam pele tatuada pra fazer abajur. Lembro também a rejeição que Penélope Nova causava com seus braços cobertos de desenhos. Hoje isso se tornou mais comum. Se antes a tatuagem estava ligada à marginalidade, bandas de heavy metal e serviam como expressão de revolta, agora são estrelinhas no pulso de adolescentes, nomes de filhos escritos com letras cursivas nas costas das mães, escudos de time na pele dos torcedores mais fanáticos. Das mais feias e escritas em inglês ruim às artísticas dos estúdios mais caros, não é preciso adotar qualquer crença para se tatuar - basta achar bonito. Os preconceitos contra tatuagens, em proporção, também diminuiram muito.

Como as coisas que eu citei deixam perceber, as tatuagens claramente obedecem aos padrões de idade e gênero. As meninas costumam tatuar flores, insetos bonitos e voadores, fadas, estrelas, linhas suaves e, à medida que crescem, acrescentam a esses elementos símbolos e citações, mas sempre associados à idéia de feminilidade e delicadeza. As tatuagens masculinas costumam ter caveiras, insetos asquerosos ou animais pestilentos, mulheres em atitudes ou formas provocantes, símbolos esportivos, linhas bruscas que remetem à idéia de força e virilidade. Mesmo quando uma mulher faz uma caveira, essa caveira será bonita ou terá um acessório que indique que ela é fêmea. Ou seja, a escolha pelo tema da tatuagem não é tão livre quanto seus donos imaginam. Eles obedecem regras não-escritas, do que fica bem em homens e mulheres. A visão de uma tatuagem consegue, isoladamente, revelar um pouco de quem a porta.

Mas isso é bastante previsível, e na realidade não me incomoda. O que realmente me parece incoerente é buscar uma diferença na pele e se submeter a todos os outros padrões de beleza uniformizadores. A visão de um corpo jovem cheio de lindas tatuagens está em todos os lugares, como exemplos do trabalho de seus artistas ou como símbolos de um certo fetiche. No entando, a visão de um corpo velho tatuado costuma causar repulsa, como se uma coisa não fosse consequencia da outra. Ao invés de assumirem seus corpos nas suas mais particulares, na formas como ele é e como ele muda com a passagem dos anos, a moda da tatuagem anda de mãos dadas com o padrão vigente. Ou seja, o corpo tatuado bonito é jovem, magro, trabalhado em academia e submetido a cirurgias plásticas. Para mostrar a tatuagem presente nas costas, na cintura, na virilha, no dorso ou em outros lugares, só é considerado estético se for um corpo "perfeito". A tatuagem serve para ressaltar a barriga tanquinho, o braço forte, a cintura fina, as formas inchadas ou ultra arredondadas do silicone. A pele flácida ou gorda não tem licença pra ostentar tatuagem. Aí algo que serviria para ressaltar o diferente, só aparece se estiver estritamente igual ao que as revistas pregam.

Desse modo, me parece que a tatuagem é realmente uma maneira superficial - epidérmica - de personalizar o corpo. Se de um lado é uma escolha totalmente individual, de outro é submissa a padrões de idade, beleza e gênero bastante precisos. Ao ter perdido a associação com o comportamento outsider, perdeu também sua característica de crítica e se tornou mais uma forma de adorno. O indivíduo que se tatua vê nesse comportamento algo individual, mas só se sente estimulado a fazer isso porque todos a sua volta estão fazendo, ou seja - atende novamente ao coletivo.