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domingo, 29 de maio de 2011

Entrevista de Abujamra com Sonia Hirsch

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“O Ministério da Saúde é um grande ministério da doença, que detecta a doença até aonde não existe, pra promover campanhas”. Com essa provocação, Sonia Hirsch, jornalista especializada em saúde e alimentação relaciona a indústria farmacêutica com a má alimentação da população.

Segundo ela “a alimentação de hoje produz o doente de amanhã, e todo mundo fica feliz”. Por todo mundo, Sonia engloba tanto os médicos e suas clínicas, quanto a indústria farmacêutica e a publicidade: “a propaganda é inteiramente irresponsável, o governo é inteiramente irresponsável, não só com relação à propaganda, mas ao que está escrito no rótulo”.

“À medida que a indústria do Câncer foi crescendo, os exames de fezes foram decaindo”, com essa frase, Sonia critica a postura dos médicos de hoje, que aboliram essas medidas simples, na detecção das doenças, e passaram a se preocupar em diagnosticar o câncer.

Sua indignação em relação ao câncer levou sua pesquisa mais a fundo: “o câncer sempre me pareceu uma história mal contada, uma caixa preta que não tinha razão de ser”. Boa parte de suas pesquisas e publicações em seu site são relacionados a esse tema.

Mesmo com as críticas, a jornalista enfatiza: “a saúde é um direito de todos e um dever de todos”, cada um deve ser responsável por saber aquilo que é melhor para si. Para Sônia o Estado não conseguer cuidar de todos nós.

Veja aqui.

Blog da Sonia Hirsch. Site dos livros de Sonia Hirsch.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O desafio

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Hoje é dia do desafio. Todo dia 25 de maio, as cidades são convidadas a conseguir o maior número de pessoas para realizar pelo menos 10 minutos de atividade física, seja ela qual for. Os SESCs costumam se envolver com essa campanha a promovem atividades físicas gratuitas o dia inteiro. De acordo com o site deles, o desafio de 2010 envolveu 20 países, representados em 3505 cidades. Mais do que uma competição entre cidades, o dia do desafio se propõe a estimular a prática de esportes, como forma de melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, que estão cada dia mais sedentários.

Mais sedentários, mais gordos, com mais problemas de saúde. A quantidade de campanhas, dicas, preocupações, especialistas, histórias de sucesso e publicações sobre o assunto demonstra o quanto é cada dia mais difícil se manter magro e saudável - termos que aparecem sinônimos mas não são. Há poucas décadas essa discussão não aparecia porque ser magro era o natural. Basta olhar fotos ou filmes mais antigos para perceber isso. Mesmo as pessoas consideradas gordas na época não o eram tanto assim, quando comparadas com os gordos de hoje. As pessoas não pensavam no assunto e não precisavam investir tanto esforço para se manterem magras.

O próprio estilo de vida das pessoas as mantinha assim. Além da nossa alimentação ser mais rápida, pobre e açucarada, a tecnologia nos cercou de conforto. Além dos grandes esforços que se deixou de fazer ao andar mais de carro e deixar de subir escadas, a tecnologia nos poupou de vários e pequenos esforços o dia inteiro: não é preciso lavar louça, não é preciso lavar a roupa e nem torcer, não é preciso sovar a massa de pão ou fazer qualquer tipo de massa, não é preciso fazer força para girar o volante ou abrir os vidros do carro, digitar não demanda a força que era necessária na máquina de escrever, basta apertar um botão para mudar de faixa ou canal. Quanto mais dinheiro se tem, menos esforço físico é preciso fazer para viver. Em outras palavras: esforço físico é coisa de pobre. A melhor crítica que vi a respeito da tecnologia do conforto foi no filme Wall-E (1:06):





Em contraste à tendência natural de engordar, nosso padrão de beleza está cada vez mais magro. Mas não a mesma magreza exibida pelas gerações anteriores, a magreza "natural". A magreza que os padrões de beleza procuram nos impor é uma magreza "trabalhada", de músculos definidos. Para chegar a ela, não basta resistir às guloseimas e comer alimentos mais saudáveis. Também não basta fugir do estilo de vida sedentário. É uma magreza buscada ativamente, que demonstra grande investimento no corpo - através de plásticas, alimentação rica em proteínas, uso de hormônio e muitas horas de academia. Especialmente nas mulheres, isso transparece em músculos hipertrofiados, fruto de muitas horas de academia.



Isso cria dois mundos separados, num onde o status está em tecnologia e comodidade, e outro onde a pessoa faz força tendo o corpo como único objetivo. A pessoa rica e bem empregada não fará, no ambiente de trabalho, mais esforço do que erguer mais do que uma pilha de papéis; na academia, ela levantará o maior peso que conseguir, repetidamente, só pra recolocará no lugar. Basta pensar que hoje em dia não há nada mais vergonhoso e constrangedor do que suar em público. Se acompanhado de cheiro, é causa de ostracismo. O ideal é nunca suar. Ver alguém suar, fora da academia ou do ambiente doméstico, é como partilhar de uma intimidade indesejada. Àqueles que têm tendência a suar muito, o mercado lhe oferece alternativas que vão desde desodorantes antitranspirantes fortes até operações.

Como apontou Elias, em contraste com o homem medieval que cuspia, suava, fedia, devolvia comida mastigada no prato e soltava todas as suas secreções em público, nos encaminhamos para uma civilização cada vez mais contida. É realmente um desafio cercar o mundo de comidas que engordam e se sentir obrigado a dizer não a elas, sob o risco de ficar fora dos padrões de beleza; buscar uma existência cada vez mais cômoda e sem esforço, mas valorizar o corpo musculoso e magro; existir, ser provido de corpo e sentimentos, e jamais deixar que eles transpirem em público.

domingo, 22 de maio de 2011

O ofício do autor, João Ubaldo Ribeiro

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Muitas coisas neste mundo não podem ser descritas, como sabem os que vivem da pena, azafamados entre vocabulários e livros alheios, na perseguição da palavra acertada, da frase mais eloquente, que lhes possam render páginas extras de prosa às custas de alguma maravilha ou portento que julguem do interesse dos leitores, assim aumentando sua produção e o pouco que lhes pagam. Recorrem a comparações, fazem metáforas, fabricam adjetivos, mas tudo acaba por soar pálido e murcho, aquela maravilha ou portento esmaecendo, perdendo a vida e a grandeza, que falta do bom verbo por mais bom não pode suprir, qual seja a de não se estar presente ao indescritível. Nas minudências da intriga e do enredo, amores dificultados, maldades contra inocentes, dilemas dilacerantes, azares do Destino, coincidências enganosas, surpresas bem urdidas, arroubos de paixão e tudo mais que constitui justa matéria dos romances e novelas, nisto sai-se ele menos mal, conforme sua destreza no ofício, sendo esses enredos e intrigas os mesmos desde que o mundo é mundo. Como, porém, descrever um cheiro?

João Ubaldo Ribeiro/ Viva o povo brasileiro

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Uma opinião e uma história sobre arte

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Os cânones artísticos estão continuamente mudando, mas na nossa época quase todas as formas de arte entraram na regra de não ter regra. É possível misturar várias referências, sem a necessidade de ser fiel a um estilo, local ou época. Não existe mais a preocupação de representar a realidade objetiva, que está cada vez mais fácil de ser capturada por celulares, filmes, videos caseiros. O artista tem liberdade total, de usar todas as formas, meios e materiais para dizer o que quer dizer. Isso, que à primeira vista parece tornar as coisas mais fáceis, levou a arte a outros desafios. Sem ter em nada pra se apoiar, cabe ao artista a decisão de cada etapa - terá nome, terá cor, terá rosto? O resultado imediato dessa aparente democracia é muita coisa que só precisa de cara de pau para se declarar arte. Coisas que não têm significado e que reivindicam um significado posterior; ou coisas que possuem apenas significado, cuja apresentação não diz absolutamente nada ao outro. Por isso muitos simplesmente desistiram de desfrutar da arte, de ir a exposições, e dizem que não entendem e não gostam. Ter feito parte dessa tentativa - a que muitos chamados de ser artista - me fez compreender que muita coisa é simplesmente ruim mesmo. Que chamar o público de burro não deixa de ser uma forma de se proteger. Pouca coisa do que está sendo produzida hoje conseguirá romper a barreira da bobagem e dirá alguma coisa ao futuro.

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O atelier funcionava de terça a sexta, em horário comercial. Por causa disso, a frequencia das pessoas era limitada àqueles que podiam pagar sem trabalhar o dia inteiro. Havia aposentados, donas de casa, pessoas que vínculos artísticos ou simplesmente recém-surtados sem saber o que fazer da vida (meu caso). Dentre essas pessoas com vários perfis, a que tinha mais dinheiro era uma senhora a quem chamarei de B.Michelin. O marido dela era muito rico, vivia viajando e a filha dele já era adulta. Sem maiores obrigações na vida, B. Michelin decidiu colocar a sua sensibilidade artística em objetos coloridos, femininos e de cores vibrantes, tais como ela mesma.

Ela não era muito boa na escultura propriamente dita, na realidade. Esculpir é um trabalho pesado. Ela não tinha noção de desenho ou de anatomia, e pra piorar tinha graves problemas de coluna. Havia, no atelier, um funcionário treinado pelo nosso professor durante anos. Esse funcionário conhecia todos os segredos da escultura e, por causa disso, fazia toda parte pesada das encomendas que nosso professor recebia. Foi o professor mesmo que nos disse, falando sobre a história da escultura, que os grandes escultores do passado não faziam tudo sozinhos. Que seria humanamente impossível produzir aqueles mármores maravilhosos da Antiguidade Clássica se não tivessem muitos escravos à disposição. Baseada nessas informações, B. Michelin se despreocupou com a parte pesada do trabalho. Ela idealizava peças e pagava o funcionário para fazer.

Um dia ela nos contou que havia contratado uma Crítica para avaliar o trabalho dela. Ela ia pagar quase mil reais (e isso foi há uns dez anos). Achamos que ela estava fazendo papel de trouxa. A Crítica foi no apartamento (no Batel, um apartamento por andar, 400m² de área privativa) de B.Michelin, e "gritava a cada peça", achando tudo lindo e maravilhoso. Ela classificou o trabalho como Art Noveau Pop, informação essa que foi adotada para todo sempre. Dias depois, apareceu uma coluna de página inteira no Caderno de Cultura da Gazeta do Povo, descrevendo B. Michelin com a mais nova revelação artística da cidade. Quando B. Michelin participou de duas exposições de designers como destaque, uma com o prazo de inscrição já vencido, começamos a desconfiar que os trouxas éramos nós.

Na versão original desse texto, a história terminava contando que com a troca de governo essa Crítica acabou caindo, e o investimento de B. Michelin não alcançou todas as suas possibilidades. Mas aí pesquisei o site da artista, depois de tantos anos, e vi que ela tem participado de exposições em São Paulo, Londres e Nova York. Caro leitor, a trouxa sempre fui eu.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Calma, tá tudo bem agora

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Há algumas semanas, eu assisti uma reportagem especial, não sei de qual emissora. Não importa, realmente, em que emissora foi, porque essas reportagens especiais seguem um roteiro muito parecido. Essa era sobre exploração sexual de crianças. Ele mostrava estrangeiros que vinham ao Brasil para dormir com as meninas, falava da pobreza, das drogas, das doenças, da infância abandonada e que algumas eram levadas pelos próprios pais a se prostituirem. Tinha imagens chocantes de meninas em boates, depoimentos dolorosos de crianças que mesmo antes de chegarem aos dezoito anos já tinham visto, vivido e sido exploradas de todas as maneiras. Uma reportagem de conteúdo pesado, que causava angústia ao nos colocar a par de um problema tão grande, que existe em todos os lugares e simplesmente não é visto.

Aí, no fim da reportagem, eles colocaram instituições exemplares que cuidam dessas meninas. Mostravam as pequenas X e Y, que pela primeira vez em muitos anos eram tratadas com dignidade e não viviam mais nas ruas. E assim, depois de todo mal estar, eles colocaram algo positivo para que os telespectadores não fossem dormir mal. Calma, tá tudo bem agora. Mas não está. Se for parar pra pensar, aquelas instituições não resolvem os problemas relativos à prostituição infantil: o número delas é insuficiente, o índice de recuperação é pequeno, os danos causados a essas crianças são muito grandes e quando falamos em perspectivas, são sempre perspectivas muito limitadas, de sair da prostituição para entrar na pobreza e no subemprego. A questão é que não paramos pra pensar, apenas nos sentimos aliviados. As reportagens que mostram a realidade nua e crua têm essa tendência, ou essa regra, de sempre terminarem bem, mostrando um problema e sua solução. Mesmo que seja uma solução muito insuficiente.

A ficção conhece há muito tempo e se utiliza do recurso de escolher bem como encerrar. Nas novelas, nos romances, os anos a fio de injustiça vividos pelos mocinhos são apagados no momento em que tudo acaba bem no final. Há obras que precisam ser totalmente repensadas, porque o final nos abre perspectivas novas para tudo o que havia acontecido antes. Lembro de filmes de terror, que não terminam nunca; eles nos oferecem um final feliz falso e logo depois plantam a dúvida - a mãozinha do assassino saindo da terra - que nada mais é do que um aviso de que haverá uma continuação. Existem as narrativas circulares, em que no fim da história nos vemos no começo, ou num recomeço. Na música, existem intervalos entre notas que dão a idéia de tensão, assim como existem os que dão idéia de finalização; tais intervalos dão colorido às frases. As músicas costumam ter um auge melódico pouco antes de acabar. Na dança, as coisas terminam em pose. Onde quer que se olhe, a maneira de terminar é uma comunicação com o público, que a partir dali deve reagir - com aplausos ou com silêncio.

Se a maneira de terminar indica que experiência o público deve levar, podemos concluir que o as reportagens chocantes nunca querem prolongar o desconforto que elas mesmas causaram. É um choque de mentirinha. O público deve ficar temporarimente abalado, mas que a TV não seja culpada de dores na consciência e insônia de ninguém. Após conhecer uma realidade difícil, que o espectador se tranquilize com a idéia de que alguém - que sem dúvida não é ele - já está providenciando solução para o problema. Se o sentimento de desconforto persistir, ele pode procurar a instituição que apareceu na reportagem e fazer uma doação.

O que aconteceria se as coisas fossem apresentadas sem solução? Se ao invés de mostrar instituições salvadoras, a reportagem terminasse com meninas que se prostituem desde a infância, usam drogas e não tem perspectiva para o futuro? Eu não sei. Quem estivesse vendo aquela reportagem ficaria angustiado, e teria que procurar sozinho uma maneira de digerir o que viu. Não há como prever que efeito teria- poderia ser totalmente inócuo, ou o espectador poderia encontrar uma solução muito mais interessante do que normalmente se propõe. Eu acho que o inesperado, não oferecer soluções fáceis, é uma experiência muito mais adulta e que vale a pena ser testada.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Blogagem coletiva em apoio à Fundação Dorina Nowill

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Quando li sobre essa postagem coletiva, o nome da fundação me soou imediatamente familiar. Me lembro de ter procurado esse nome do google para escrever corretamente. Isso porque um dos meus primeiros entrevistados - e o primeiro a aparecer no livro, que está em ordem decrescente da quantidade tempo em que está cego - foi para lá em busca de ajuda. Porque ele ficou cego de repente e aqui em Curitiba não havia onde procurar ajuda. Sua família tinha condições financeiras para lhe oferecer o melhor, por isso ele foi até São Paulo, para a Fundação Dorina Nowill, para aprender a se readaptar.

Isso foi há muito tempo, e hoje o nosso Institudo dos Cegos tem como oferecer apoio à essas pessoas. E existe também a Associação dos Deficientes Visuais do Paraná. A Biblioteca Pública do Paraná possui um grande acervo em braille e audio-livros, grande parte dele feito com a ajuda de voluntários. Pela sua história e qualidade, o instituto Dorina Nowill continua como referência a todos aqueles que sofrem com a deficiência visual - o que inclui cegos, pessoas com visão residual, amigos, familiares e educadores. Como a pesquisa que fiz sobre o assunto me levou a perceber, as pessoas tendem a olhar a questão da cegueira de maneira esteriotipada. O cego é visto como um coitado, que quando muito precisa de educação especial. A cegueira é apenas uma parte da vida dessas pessoas. Os cegos querem comida, diversão e arte - eles querem a mesma coisa que eu e você.

Pra ajudar as pessoas a lembrarem dessa questão, estamos fazendo essa blogagem coletiva. Você, blogueiro, pode fazer um post onde conste o endereço da Fundação Dorina Nowill e avisar aqui. Outra forma de participar é clicar em um dos links que coloquei ao longo do texto, ou quem sabe procurar entidades que trabalhem com cegos no seu estado e fazer uma doação. Existem muitas formas de doar: pode ser tempo, dinheiro ou solidariedade.

terça-feira, 10 de maio de 2011

A conversão do diabo

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Quem não ama o bem?

É assim que Leonidas Andreif começa um dos melhores contos que eu já li, que marcaram a minha vida: A conversão do diabo. Fui à minha estante, à procura dele, e não o achava entre os contos de Maupassant. Porque o conto é cheio da ironia, o pessimismo e a desilusão que consideramos as marcas de Maupassant. Nunca li, ao que eu saiba, qualquer outra coisa de Andreif. Caso A conversão do diabo seja um daqueles casos únicos de um autor que não produziu mais nada, já terá valido a pena. É uma reflexão dura e, de certa forma, um tapa na cara de todos aqueles que buscam o aprimoramento pessoal. Para Andreif, o esforço consciente para se tornar bom é algo que não chega a lugar nenhum.

Uma vez, um diabo, já entrado em anos e a quem tinham apelidado, no inferno, de Narigão, sentiu, inesperadamente, certa inclinação à virtude. Entregara-se na sua mocidade, como todos os diabos, a insignificantes proezas diabólicas, mas, com a idade, já um tanto cansado do seu oficio, tornara-se comedido.
Embora gozasse de ótima saúde, os excessos juvenis quebraram-lhe um pouco as forças e ele não sentia entusiasmo algum pelas tolices da mocidade. Cada vez sentia mais acentuada propensão para a ordem (virtude esta muito comum entre os diabos); dotado de espírito firme e esclarecido, embora um tanto metafísico, gostava de filosofar.
Acabou por perder a fé na perfeição do inferno e nos costumes diabólicos.Enfadava-se principalmente nos dias festivos, quando não tinha nenhuma tarefa a desempenhar e não sabia como matar o tempo, tanto mais que era celibatário.
Para lutar contra essa situação que tanto lhe perturbava o espirito, entregou-se ao trabalho, mudando várias vezes de ofício.
De inicio, instalou-se como diabo tentador em uma igrejinha católica de Florença.
Ali, segundo suas próprias palavras, saboreou pela primeira vez o repouso de espirito.
Ali, também principiou sua conversão.

E assim somos nós, eu e você, depois que passamos de uma certa idade. Alguns já nasceram meio velhos, outros demoram mais. De qualquer maneira, todo mundo passa por uma fase de em que basta haver sexo oposto, alcool e música pra tudo ser divertido. Como se tivesse um botão escrito FUN e bastasse apertá-lo. Porque às vezes as condições são muito ruins - caronas desconfortáveis, péssimas acomodações para dormir, pouca comida - e mesmo assim tudo parece muito divertido, tudo vale a pena. Até que um dia os pobres diabos começam a se sentir exaustos antes mesmo da diversão começar. Pensam em como estará na segunda-feira, nas contas a pagar e esse processo de prestar atenção em detalhes faz com que a magia se perca. Talvez seja por causa do corpo, e sua curva descendente. Ou talvez o ser humano realmente aprenda alguma coisa com o tempo.

- Tu és um verdadeiro sábio nas questões religiosas! Realmente! - Por ventura as estudastes?
- Um pouco, respondeu modestamente o diabo. Apesar dessa modéstia, conservava sua dignidade; não se humilhava, nem demonstrava demasiada afetação.
Via-se logo que era um diabo sério, ponderado e judicioso. Não se orgulhava de seus conhecimentos, e por isso agradava ainda mais o velho sacerdote.
- Afinal - perguntou-lhe o padre - o que desejas?
Então o diabo caiu de joelhos, exclamando:
- Ensine-me, meu padre, a praticar a virtude. Sinto grande desejo disso. Eu não posso viver sem praticar a virtude, porém não sei como fazê-lo. Quanto ao Satanás e a todos os místeres diabólicos, renuncio a eles para sempre.
E, com o fito de confirmar suas palavras, o diabo cuspiu desdenhosamente três vezes seguidas.

A história é divertidíssima. Quero muito que vocês passem no link completo do conto e comprovem o que estou dizendo. Uma pequena amostra, só pra animar vocês:

- E o que quer dizer esta camisa nova? Ganhaste-a de presente?
- Qual! Comprei-a para dar ao primeiro que ma pedisse. Durante quinze dias estive passeando pela cidade, entre os pobres. Pediram-me tudo o que o senhor possa imaginar, menos a camisa. Provavelmente ignoram o caminho do bem.

O padre é um homem simples e bondoso, o diabo culto e disciplinado, e a procura do bem se revela um desafio para os dois. O padre é bom instintivamente, e não consegue transmitir isso. O diabo não consegue sentir o que é o bem, não consegue decidir o que fazer diante das situações; ele não pode contar com o que tem dentro de si. A cultura e todas as escrituras se mostram inúteis para o diabo, porque elas são contraditórias e não esclarecem sobre O Bem no dia a dia. Quanto mais eles buscam, mais O Bem parece fugir deles. Nesse esforço, o diabo comete erros maiores do que do os que quando era apenas mais um diabo.

Como não lembrar de fundamentalistas religiosos? Pessoas que interpretam livros sagrados ao pé da letra e esquecem que o preceito mais importante é o do amor e da tolerância. Ao invés de ser um instrumento de união, instituições religiosas dividam o mundo entre nós x eles, sendo que eles merecem todo sofrimento porque pensam/agem diferente. Mas a acusação de não saber o que é o bem não cabe apenas a fundamentalistas ou pessoas radicais. Todos estamos continuamente buscando um bem que não sabemos direito o que é, e nessa tentativa nos cremos melhores do que realmente somos. Na tentativa de acabar com um defeito, frequentemente apenas trocamos um pelo outro, quando muito. Para Andreif, somos todos diabos arrependidos, desejando princípios sem conhecê-los, patéticos e bem intencionados.