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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Mulher de poderoso

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O que chama a atenção nessa entrevista, pelo menos entre as pessoas com quem conversei, é que a mulher do Cachoeira é tão linda quanto burra. A mim isso não surpreende, ao contrário: acho que para estar ao lado de um homem poderoso, as duas características acabam sendo pré-requisitos. Lembro de um amigo do meu pai, riquíssimo, que trouxe uma mulher do interior do Alagoas, mais nova do que eu (na época eu tinha vinte e poucos anos) para viver com ele no flat. Burra de dar dó. Eu não conseguia conversar com ela, ela não tinha assunto. Isso de maneira alguma o incomodava; para conversar, ele tinha o meu pai. Mulher era pra outra coisa. Como, por exemplo, exibir com um vestido lindo no Réveillon mais caro de Salvador.

É como se a mulher tão forte e inteligente quanto o homem fosse uma necessidade de classe média. As que estão muito acima e muito abaixo da pirâmide ainda parecem ver na beleza, no corpo e no casamento as melhores maneiras de ascender socialmente. Penso nas mulheres-frutas, tão felizes com suas plásticas e a bunda na televisão. Não é desses segmentos que as feministas vêm. Para as feministas, mulheres como Andressa Mendonça são um retrocesso; para elas, não há vantagens o suficiente nessa tal libertação feminina.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Propaganda e uma desilusão

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Não lembro se recebi por e-mail ou comentei na época que essa publicidade saiu:


Acusei a propaganda de ser machista, de ver a mulher como objeto, de chamar as mulheres de prostitutas e vários argumentos que passam pela cabeça de uma mulher instruída quando vê isso. Estava em meio à minha revolta, quando um amigo calmamente me disse:
- Mas funciona. Poucas mulheres deixariam de abrir as pernas depois de ganhar uma jóia.

Tive que ficar quieta e reconhecer que é verdade. Podemos dizer que não é pela jóia em si e sim pelo que o gesto de comprar algo tão caro significa... Ou podemos achar que é pela jóia sim, como uma troca. Isso torna a mulher uma vagabunda? O que abrir as pernas porque ganhou uma jóia revela?

Revela que na relação entre os sexos, há muito, a mulher entra com o seu corpo, a sua juventude e a sua aparência, e o homem entra com o poder e o dinheiro. Os homens acusam as mulheres de serem interesseiras e as mulheres acusam os homens de só pensarem em sexo. Os dois têm seus motivos, são as maneiras mais tradicionais de se atuar. Maneiras que hoje as feministas criticam, apesar da resistência de outras mulheres. Talvez não estejamos todas lutando ao lado do feminismo porque, quando se abandonam as armas da sedução, talvez não haja tanta coisa nos esperando.

O que eu posso dizer em favor do feminismo: vejo mais mulheres dispostas a agir de outras formas do que homens dispostos a abrir mão da beleza e juventude feminina.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Feminilidade

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A feminilidade não está restrita à juventude, aos traços faciais, à cor do cabelo, ao tamanho dos seios, dos quadris ou a qualquer outro tamanho. A visão binária que divide o mundo em masculino e feminino, claro e escuro, reto e redondo, ativo e passivo, público e privado, sempre nos foi muito negativa. Mas a crueldade para com as mulheres que vivemos hoje atingiu um nível muito mais profundo porque nos disseram - e nós acreditamos - que a feminilidade é um atributo físico, que pode ser perdido, que precisa ser comprado. Agora as mulheres correm para transformar seus corpos, assim. E nunca se sentem seguras o suficiente, por mais que invistam, porque na verdade estão procurando no lugar errado.

Ver La Truco, uma das grandes bailaoras da atualidade, me relembra isso. Ela não tem corpinho ou idade de modelo. Mas - ou será justamente por isso? - transpira feminilidade.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Feminismo problemático

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Se declarar feminista, escrever sobre temas feministas, é se conformar a ser considerada lésbica, mal amada, ranzinza, chata, ruim de cama, feia. E pior, reforçar tudo isso (na lógica de que todo louco acha que é normal) quando se defende, ao reclamar que essas coisas não são colocadas em questão quando falamos de homens. "Feminista" é uma atribuição pesada, que afasta muitas mulheres do tema. Ao mesmo tempo, ser mulher e não se declarar feminista é como olhar uma pessoa apanhando e atravessar a rua pra não se meter em confusão. Não conheço nenhuma mulher que não reconheça o valor do feminismo, que nunca tenha se sentido desvalorizada nas suas opiniões só por ser mulher. As mulheres que passam reto diante das discussões feministas sentem que estão se poupando e deixando que as outras sofram por elas. Isso faz com que o feminismo seja um problema da qual uma mulher não consegue fugir - ou ela se coloca na linha de frente e recebe a carga de preconceito que a palavra carrega, ou se abstém com a sensação de que não está fazendo a sua parte.

Fazer a sua parte é outro problema. Lembro de uma reportagem sobre um lava-carros que só utilizava mão de obra feminina. Lavar o carro lá custava mais caro, porque as mulheres os lavavam de shorts e camisetas brancas, sem soutien. Aos clientes era dada a opção de ficar dentro do carro durante a lavagem, o que os permitia observarem os seios das moças colados no vidro enquanto elas executavam o serviço. Não preciso falar que a graça era apenas essa, que o único motivo que levava os homens a lotarem aquele lugar era para olhar essas mulheres. Mas, quando o lava-carros proibido, essas moças se sentiram prejudicadas. Elas alegaram que não eram ingênuas, que sabiam que estavam expondo seus corpos. Disseram que não eram prostitutas, que nenhum homem tocava nelas, e que tinham o direito de se expor e serem bem pagas (recebiam mais do que um serviço de lava-carros normal) por isso.

As mulheres que lucram com o desejo masculino se consideram bem pagas, por mais que isso seja considerado por outras uma forma de exploração sexual. Elas não se sentem subjugadas e sim poderosas - exercer a sua sensualidade livremente não deixa de ser uma conquista quando pensamos naquelas que precisam se cobrir da cabeça aos pés. E o que dizer das rainhas de bateria, que não apenas se expõem como são muito musculosas, de uma maneira fabricada com dietas ricas em proteínas e anabolizantes? O corpo masculinizado delas pode ser considerado um avanço, se pensarmos na reivindicação de ser não ser mais o sexo frágil, não ter que se diminuir para que um homem se sinta forte ao seu lado. Na época da minha mãe era impensável ver uma mulher fumando em público, bebendo até cair, priorizando sua carreira em detrimento da família, que não sabem e não querem ser boas donas-de-casa. Mais: mulheres fazendo sexo casual, mulheres que decidem não ter filhos, mulheres consumindo e produzindo pornografia, mulheres expondo sua sexualidade. São todos comportamentos que demonstram liberdade, mesmo que alguns nos choquem ou incomodem.

Por ser o feminismo um assunto tão amplo, não há uma fórmula, ninguém tem clareza sobre o que fazer e quando. É difícil avaliar o que é um avanço ou um retrocesso. A acusação de "masculinidade" (ser lésbica, agressiva, etc) que pesa sobre as feministas, leva alguns à crença de que a feminista deve se esmerar nos cuidados femininos, a saber: ser bonita, usar saia, andar de salto alto, cuidar bem das unhas, falar com delicadeza, ter marido e filhos. Tudo para que ela se defenda de antemão às acusações típicas, para que ela seja ouvida. Para outros, essa exigência é mais uma armadilha. Que se um homem é avaliado pelo que ele fala e não por sua aparência ou vida sexual, não há porque aceitar que essa exigência pese sobre as feministas. A crítica feminista seria justamente sobre essa forma tradicional e apaziguadora de feminilidade; então, que sentido teria cobrar que as feministas a repetissem. Por isso, algumas mulheres compreendem que não reproduzir esse modelo de feminilidade é uma forma importante de luta.

Quando a gente começa a aprofundar sobre o assunto, realmente começa a enxergar machismo em toda parte: na publicidade que mostra a mulher de lingerie esperando pelo seu homem, em campanhas políticas que ressaltam que a candidata governará "com o coração", na exigência do judiciário de que as mulheres usem saia, na proliferação das listas de mulheres mais bonitas. São muitas bandeiras a se levantar, tantas quanto as resistências. Quanto mais normal, habitual e indiscutível é um comportamento, mais difícil e mais chato de apontar. E às vezes é muito mais do que isso: apontar certas coisas transforma o debate numa simples guerra entre sexos, o que não é verdadeiro. Estamos imersos no mesmo mundo, e mulheres também consomem e reproduzem idéias machistas. Somos nós, mulheres, que compramos e usamos as lingeries, que colocamos a aparência como ponto fundamental na nossa auto-estima. Nós lucramos com o desejo masculino, recorremos às lágrimas e alegamos desvantagem física quando nos convém. O machismo nos oferece algumas vantagens, a qual nos apegamos. Gosto da definição de Bourdieu, que diz que a relação entre homens e mulheres é de dominação, onde os dominados (as mulheres) consentem de maneira ingênua, sem perceber que ganham muito menos do que oferecem e ajudam a perpetuar sua situação.

Não conheço resposta a esses problemas. Quanto mais um mulher se informa e se identifica com o feminismo, mais questões pessoais surgem. Dúvidas que para as outras pessoas podem parecer muito simples, muito triviais. A honestidade intelectual às vezes nos faz chegar a resultados indesejados e enfurecer quem quer enxergar apenas conquistas, e numa determinada direção. Talvez uma boa lembrança seja a de que quando uma causa é grande demais, não existe uma forma única de se lutar por ela.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Devemos nos perguntar se a pornografia roubou nossa sexualidade?

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Encontrei esse link por acaso, de olhar o facebook de uma amizade recém-feita. Era meia noite, estava indo dormir mas a leitura se impunha. Recomendei no meu twitter, atrapalhou meu sono, outras pessoas reagiram da mesma forma e também escreveram posts. Coloco aqui um trecho pra ver se atiço a curiosidade de outros, porque é uma leitura chocante e necessária:

Quando fui para a exposição anual pornô em Las Vegas, entrevistei muitos produtores de pornografia. O que foi surpreendente é o que lhes interessa é o dinheiro. Eles não falam de sexo, falam de dinheiro. Eles falam de correspondência em massa, eles falam de publicidade de massa. O que nós esquecemos quando falamos de pornografia é que estas não são fantasias criadas do nada, que caíram do céu, essas são fantasias criadas dentro de um mercado tipicamente capitalista. O que você vê na pornografia é uma necessidade para manter isso. Agora, o que aconteceu é que quanto mais os homens estão usando a pornografia, eles são cada vez mais entediados e insensíveis com ela, o que significa que eles querem o material mais e mais violento. E a pornografia, porque é o lucro, tem de satisfazer as suas necessidades. O que é interessante é que pornografia é na verdade uma bagunça porque eles não sabem mais o que fazer, os pornógrafos. Eles foram tão graves e tão cruéis quanto eles podiam. Eles fizeram de tudo com os corpos das mulheres, perto de matá-las. Então a questão é, o que eles podem fazer agora para manter um público cada vez mais insensível interessado?


Leia mais, leia tudo.