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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Amor, Guimarães

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Quando alguém dizia que tinha Guimarães Rosa como seu escritor favorito, eu achava puro pedantismo. Ou uma mentira mais sofisticada do que aqueles que dizem gostar de ler e não sabem recomendar um único livro. Minha má impressão vinha da leitura apressada que eu tive que fazer do Primeiras Estórias, porque caia no vestibular. Lembro de ter gostado da história do Famigerado e só. Achei chato, embolado, não entendia metade do que todo mundo dizia. No ano passado resolvi dar uma nova chance, porque percebi que detestei todos os livros que li no vestibular. É uma fase complicada.

Comecei devagar, com alguns contos. Já encantada, parti pro Grande Sertão: Veredas. É uma pena que eu, você e quase todos os brasileiros, sabemos antes de ler o livro que Bruna Lombardi encarnou Diadorim na adaptação do livro em minissérie, pela globo. Jamais vi a minissérie, mas já sabia o suficiente pra não ter nenhuma revelação no final. Não que isso invalide o livro, apenas seria uma outra leitura. Imagino que a surpresa seria imensa, como no final do Absalão, Absalão!, que me obrigou a fechar o livro e reorganizar tudo o que eu pensavada história contada até então . Guimarães Rosa quis dar um nó na cabeça dos leitores: ele amava Diarorim porque no fundo sentia que era uma mulher? Ele amava Diadorim porque era bissexual? Ele amava Diadorim porque amor não tem sexo?

Diga o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente - tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou o meu cabelo. Sempre. Do demo. Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?


De lá pra cá, outros dois contos dele me chamaram a atenção pela atitude provocativa: Estória de Lélio e Lina (Corpo de Baile, vol 1) e Desenredo. Este último, curtinho, tem aquela frase famosa dele "Todo abismo é navegável a barquinhos de papel". Temos a figura (que também aparece na Estória de Lélio e Lina) da mulher que sempre traiu e sempre trairá os homens que ficam com elas. E talvez por isso mesmo, essas mulheres são fascinantes e sempre encontram homens dispostos à fazê-las mudar. Até aí, Nelson Rodrigues também dá conta. O que surpreende no conto é a disposição de seguir em frente, de estar com essa mulher traidora, de achar mais fácil enganar a si mesmo do que abrir mão do amor. A tal mulher traidora é tão maravilhosa e proporciona tanta felicidade que mesmo o preço da traição se torna pagável. Riobaldo e Jô Joaquim tinham em comum um amor desafiante. Mas Jô Joaquim foi mais corajoso.

A Estória de Lélio e Lina, é semelhante a Grande Sertão: Veredas por oferecer ao leitor um surpresa no final. A narrativa é toda centrada na figura de Lélio e sua chegada numa fazenda. A história fala de toda sua permanência lá: como novato, visitando as "tias", envolvido em conflitos, procurando se assentar na vida. Passamos a história inteira procurando a Lina, e nos decepcionando com as personagens femininas que aparecem. É o nome do conto que cria essa expectativa. Procuramos Lina no amor platônico, na irmã que vai chegar, na filha solteira e ela nunca vem. No fim, descobrimos que a Lina estava debaixo dos nossos olhos o tempo todo. Se Guimarães em Grandes Sertões: Veredas questionou a nossa capacidade de amar as pessoas independente do seu sexo, em Desencontros, apesar de seu sexo, em Estória de Lélio e Lina ele nos mostra o quanto a nossa noção de amor é pequena e sexualizada.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Uma antropologia de distância

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Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo todo do banho dando mergulho e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaiamuns diz-que habitando a água doce por lá. No mucambo si alguns cunhatã se aproximava dele para fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém, respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o torê o bacorocô a cucuicogue, todas as danças religiosas da tribo
Macunaíma/ Mário de Andrade

Não sei quanto a vocês, mas esse trecho faz com que eu me pergunte: jirau de paxiúba é uma planta ou um objeto? Existem outros tipos de jirau? É comum as pessoas se pendurarem neles ou isso é mais um prova do quanto Macunaíma era esquisito? Os guaiamuns são peixes ou algum tipo de bichinho? Existem em tamanhos e colores ou são nojentos? Porque essas palavras pra mim são apenas termos estranhos, impronunciáveis. Se fosse substituídos por cadeira e pernilongo, não afetaria a história. Mário de Andrade, ao escrever esse Macunaíma, tinha a intenção de fazer uma literatura nacional, e pra isso buscou raízes indígenas. Mas ele entendia de índio tanto quanto eu e você conhecemos, ou seja, através do que ouvimos falar, do que todos sabem, de esteriótipos.

Eu imagino Mário de Andrade debruçado sobre livros com lendas, linguagem e histórias folclóricas. Porque essa era a maneira que qualquer um da época dele estudaria os índios. O movimento modernista da Semana de 22 pretendia representar a literatura daqueles que não sofreram influência estrangeira, que expressassem uma brasilidade mais pura. Eu diria que Mário de Andrade escreveu uma "literatura indígena de gabinete," com palavras de diferentes povos, descontextualizou objetos e misturou tradições. Nada diferente de uma época em que os ditos primitivos ou selvagens eram vistos como uma versão simplificada e inferior da nossa. Nós seriamos complexos e eles simples, como se fossemos adultos e eles crianças. Sendo assim, dar voz a eles é quase uma atitude paternalista de entender um estágio anterior, olhar para trás. Os índios, como coletivo, não deviam ter tantas particularidades assim...

Digo isso porque a Antropologia foi fundada dessa maneira. Ela nasce no contato da Europa com com os outros povos na época das grandes navegações. É marcada pelo sentimento de estranhamento; ainda maior do que ele, é a certeza de que somos mais evoluídos porque os descobrimos (e eliminamos) primeiro. Há uma anedota que diz que um dos maiores antropólogos desse período, ao ser questionado se gostaria de conhecer pessoalmente um homem selvagem, teria respondido "Deus me livre". Como várias correntes teóricas, a antropologia bebeu durante muito tempo dos fundamentos do evolucionismo. Foi apenas com Malinowski - que publicou sua pesquisa de campo em 1922 - que essa mentalidade começou a mudar. Quando, no início d´Os Argonautas do Pacífico Ocidental, Malinowski se coloca e nos coloca em contato direto com os primitivos - "Imagine o leitor que, de repente, desembarca sozinho numa praia tropical, perto de uma aldeia nativa, enquanto a lancha ou a pequena baleeira que o trouxe se afasta até desaparecer de vista" - ele inaugura um novo paradigma: o antropólogo não pode ser desvinculado do trabalho de campo. E é o trabalho de campo que faz com que o antropólogo olhe as coisas a partir do olhar do outro, o que pouco a pouco mina a certeza da superioridade.

O que existia antes de Malinowski eram os chamados antropólogos de gabinete. Estar perto dos primitivos era caro, longe e desconfortável. Eles não falavam inglês, francês ou qualquer língua civilizada; não ofereciam camas quentes e nem talheres. Alguns deles nem ao menos reconheciam sua inferioridade. Sem se preocuparem com questões filosóficas ou econômicas, a vida desses povos parecia apenas ausência, reduzida a sentimentos bárbaros e essenciais. Por realmente acreditar nessa simplicidade toda, para os antropólogos de gabinete bastavam os relatos de terceiros - viajantes, registros históricos, informantes - para conhecer a cultura selvagem e escrever sobre ela. O Ramo de Ouro, de Frazer (1890), foi durante muitos anos um clássico da área. Ele reúne três volumes de curiosidades e idiossincrasias de diversos países, épocas e culturas, todas misturadas e descontextualizadas. Tal como Mário de Andrade fez com os dados indígenas ao escrever Macunaíma.

Hoje entendemos que diferente não quer dizer inferior, e que outros povos não são etapas que chegarão a nós. E que a tal simplicidade não existe, é apenas uma complexidade diferente. Como eu tantas outras coisas, é preciso chegar perto para conhecer e falar com propriedade. Do mesmo modo que um bom escritor não precisa usar um vocabulário rebuscado para se mostrar erudito, não é preciso usar palavras estranhas para retratar as raízes brasileiras. Isso fica muito claro na obra de Guimarães Rosa. Para mim, é como se Guimarães, e não Mário de Andrade, tivesse realizado o projeto modernista. Na própria construção das frases, a declinação das palavras, a maneira como elas são colocadas nos transporta para uma realidade diferente. Vemos, nos personagens, uma maneira própria de viver e olhar a realidade, algo que alguém num gabinete não conseguiria criar: a proximidade com os animais, o conhecimento, respeito e temor pelos ciclos da natureza, a presença do sobrenatural, a saudade. Tudo diferente e ao mesmo tempo muito próximo, muito humano - um conhecimento que tem raízes.

Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns trechos; que sorrateiro sertão vai virando tigre debaixo da sela. Eu sabia, eu via. Eu disse: não-zão! Me desinduzi. Talento meu era só o viável de uma boa pontaria ótima, em arma qualquer. Ninguém nem mal me ouvia, achavam que eu era zureta ou impostor, ou vago em aluado. A conversa dos assuntos para mim importantes amolava o juízo dos outros, cacetava. Eu nunca tinha certeza de coisa nenhuma.

Grande Sertão: Veredas/Guimarães Rosa