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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Calças

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Há uma passagem na Bíblia que diz que as mulheres não devem se vestir como homens. Quando penso nisso, sempre me parece que Deus está reprovando, antecipamente, algumas personagens de Shakespeare. Essa condenação faz com que certas igrejas proíbam suas fiéis de usarem calças. E de terem o cabelo curto. A união de cabelo longo e saia - nunca acima do joelho - faz com que as crentes sejam reconhecidas de longe. Não adianta argumentar que há muito tempo as calças se tornaram uma roupa unissex (o cabelo, há menos tempo), porque na época bíblica não era. O que veio depois foi uma desobediência.

Não são apenas as mulheres que podem causar desgosto quando colocam calças. Isso acontece também com os índios. Equipes de TV gostam que eles coloquem pelo menos shorts, para não exibirem em horário nobre o que entendemos como indecente. Por outro lado, eles não devem cobrir muito mais do que isso, porque nada irrita mais do que um índio vestido. Índios de jeans, usando talheres e falando no celular faz as pessoas pensarem que eles já não são tão índios assim, que não há porque protegê-los, que eles são brasileiros iguais aos outros. Por causa disso, quando precisam reivindicar seus direitos, os índios se vestem de maneira tradicional - nus, corpos pintados, adereços artesanais. Senão, sua diferença cultural não é reconhecida.

A roupa é uma forma de comunicação. Ela mostra de maneira imediata e não verbal que as pessoas compartilham da mesma cultura. O vestuário, a moda, refletem o estilo de vida daqueles que o produzem. As roupas falam do que consideramos público e do que consideramos privado; o que deve ser escondido e o que deve ser apenas insinuado; como entendemos as diferenças entre os sexos, entre as gerações, entre os diferentes momentos da vida. O ato de vestir - ou despir - é uma atitude comunal. Ao entender que um período - de roupas, de música, de costumes, de qualquer coisa - deve ser mantido, tentamos engessar a história. Uma roupa fora do seu contexto é sempre desconfortável. Obrigar alguém a se vestir diferente, é privar a pessoa do anonimato daqueles que estão bem situados. Dizer que mulheres e índios não devem usar calças, a torna um símbolo de masculinidade e civilização. E demonstra os tabus que ainda temos em torno dos dois conceitos.

domingo, 17 de julho de 2011

Guarda-pó

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Basta digitar a palavra cientista no Google pra encontrar várias fotos semelhantes a essa: uma pessoa de guarda-pó, preferencialmente em meio a tubos de ensaio. Lembro de uma propaganda de um desses cogumelos milagrosos ("contra artrite, artrose, osteoporose"), em que a imagem do cientista ganhava um acréscimo: aparecia um japonês de guarda-pó para falar das últimas pesquisas relativas ao produto. Se cientistas já são pessoas inteligentes, gênios, imagine só um cientista japonês! Não menos ridículo é pensar que até poucas gerações atrás os professores de sociologia usavam guarda-pó também. São ciências sociais, entende? Me pergunto como uma peça de vestuário que deve ter nascido da simples praticidade de proteger a roupa adquiriu um imaginário tão poderoso. Há quem declare sonhar em ser um profissional da saúde para usar guarda-pó branco - ou que tenha fantasias sexuais com quem o usa. A função de proteção é o de menos. O guarda-pó é um verdadeiro símbolo de status.