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sábado, 30 de abril de 2011

Escrever pra quê e pra quem

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Isso aconteceu durante uma aula do mestrado. Algumas pessoas acharam engraçadíssimo, a piada do curso. Outras, fecharam a cara, ficaram pessoalmente ofendidas. Alguns juraram que com eles seria diferente, que o trabalho deles estava destinado a ser relevante para o mundo.

- Durante a minha pesquisa - contava o professor da área de sociologia rural - eu descobri que o grande Fulano da Silva, da famosa família Silva do Mato Grosso, considerado o precursor a pecuária brasileira, não passava de um ladrão. Um la-drão. Era proibido trazer cabeças de gado de uma determinada raça aqui pro Brasil, e ele trouxe mesmo assim, tudo ilegal, escondido em navios que passavam pela Amazônia...
- Mas, professor, o senhor chamou o Fulano da Silva de ladrão no seu trabalho, com todas as letras? E a família Silva não ficou aborrecida?
O professor estava começando a argumentar, quando um aluno da área de cultura, até então alheio à discussão, interviu:
- E você acha que a Família Silva leu o trabalho dele? Ninguém leu, ninguém sabe se ele chamou de ladrão ou não. Você acha que alguém vai ler os nossos trabalhos? O que a gente faz na academia fica na academia mesmo, só nossos orientadores é que lêem e olhe lá!

Engraçado ou não, isso é muito verdadeiro. Senti essa dificuldade quando me propus a escrever este blog. Pensei em colocar algumas coisas que escrevi em de tantos anos de discussões e trabalhos. Mas nada se aproveitava. A necessidade de atender às normas científicas, fazer citações, colocar bibliografia e, principalmente, de utilizar o jargão, tornam tudo o que escrevi na academia próprio apenas para ela. Por outro lado, eu sei que por mais interessantes que sejam os textos que coloco aqui, por mais sociológicos que pareçam certos insights, nada disso teria relevância ou poderia ser plagiado pra ser transformado num artigo científico. Se alguém quiser utilizar alguma das minhas idéias, terá que pesquisar tanto e colocar tanta bibliografia no meio que se tornará um trabalho inédito...

Circuntâncias pessoais difíceis me afastaram da academia, de uma maneira que eu considero definitiva. Perderei em títulos - daqueles que adornam paredes, fazem com que as pessoas nos olhem como gênios e garantem remunerações maiores. Ao mesmo tempo, com este blog atingirei muito mais pessoas e terei muito mais liberdade na hora de escrever (claro que não o suficiente para compensar a bolsa que perdi, *suspiro*). Quando você se propõe a pesquisar um tema, é ele quem te ocupa em todas as suas leituras, todas as notícias que você procura, todas as suas formas de olhar a realidade. Não que outras coisas não despertem interesse, mas na academia o pêlo no ovo que cada um se propõe a pesquisar torna-se seu amor e sua prisão. No blog, posso falar de família, cinema e teorias conspiratórias sem o menor receio.

Sociólogos costumam nutrir antipatia por os jornalistas, pela tendência dos últimos à simplificação. Um exemplo clássico é chamar um especialista e fazer as perguntas de maneira mais básica, pedir para resumir uma questão em poucas palavras e falar da maneira mais simplista o possível "para que a pessoa que está em casa entenda". Como se todos os que estivessem assistindo a TV naquele instante fosse ignorantes e quisessem permanecer assim. Ao invés de tentar aumentar o nível do debate, jornalistas são acusados de nivelar constantemente por baixo. Assim dá a impressão de que só existem duas maneiras de discutir um assunto: a profunda, acadêmica, hermética e cheia de jargões, inascessível a quem não é da área; a coloquial, simplificadora e senso comum, veiculada pelos meios de comunicação e que atinge todas as camadas.

Não acredito que seja assim, e blogs mostram constantemente isso. Eles são mais rápidos e acessíveis, utilizam uma linguagem que atinge diversos tipos de público. Promovem debates interessantes e muitas vezes superam a imprensa tradicional. É possível passar o dia inteiro na internet lendo piadas, mas também é possível ter acesso a pessoas e informações que de nenhuma outra maneira seria possível. Mais do que uma simples exclusão, acredito que aqui é possível buscar uma discussão de qualidade, numa linguagem que permita que o conteúdo possa ser digerido por muitos. Aquilo que, num passado distante, buscavamos da ciência.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Decadência

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A sociologia entende que culturas vão e vem; que falar em decadência é, na realidade, a eleição de uma cultura e a pretensão de eternizá-la. Algo sempre fica decadente em relação à alguma coisa - então, como dizer o que é referência? Naturalmente, cada um escolherá como referência a cultura a qual pertence e a época que vive (ou viveu). Por isso a tendência de olhar para as gerações mais novas e achar que elas estão decadentes, assim como nossos pais diziam o mesmo quando éramos jovens. A religião parece trazer a idéia da decadência no seu cerne, porque elas geralmente surgem baseadas na figura de um lider carismático ou pouco após a sua morte. Esse lider se torna o marco zero, e à medida em que nos afastamos da época em que ele esteve presente, a decadência aumenta. A idéia de decadência funciona como alguém que anda olhando para trás.

Em alguns casos é difícil não pensar que estamos vendo uma decadência. Vejo as pessoas terem muita certeza disso no campo artístico, que parece ter entrado numa simplificação sem fim. Um exemplo bem claro é o da música. Pouca gente é louca de comparar a música clássica com a pop; falemos da música pop em relação a si mesma. Ainda ouvimos e cultuamos a música dos anos 70 e a música hoje é quase toda descartável. O problema é que os objetivos e a forma de produzir música mudaram. Ao contrário do conhecimento científico, que procura ser acumulativo, na arte a mudança não quer dizer superação, apenas diferença. Ainda ouvimos as obras do passado e gostamos; temos acesso às que permaneceram e por isso achamos que tudo naquela época era excelente. As obras atuais ainda não sofreram o filtro do tempo, estão próximas demais. Não tem como negar que a nossa música que se ouve hoje é realmente menos elaborada, em critérios melódicos. Ela está associada a outras formas de consumo e está muito ligada à imagem, aos videoclipes. Isso é melhor ou pior? Depende do critério...

Nos "costumes" encontramos a maior queixa de nossa decadência. Por costumes, geralmente podemos entender o comportamento sexual. Todos estaríamos mais libertinos. A liberdade sexual dos anos 60 teria nos levado ladeira abaixo; o modelo anterior não era perfeito mas pelo menos funcionava. Ou seja: a liberdade sexual ampla e às claras é assustadora. Não dá pra mensurar a quantidade de pessoas que burlavam essas regras, mas sabemos que elas existiam. Homens e mulheres não sabem mais qual comportamento é normal ou quantos parceiros uma pessoa saudável pode ter. O homossexualismo deixou de ser considerado uma doença. Essa dificuldade em encontrar respostas simples dá a alguns a sensação de decadência. Não que não houvesse liberdade sexual antes, mas ela estava restrita a um pequeno grupo: homens heterossexuais. A eles ter muitas parceiras não apenas não era negado como era estimulado, dentro e fora do casamento. Já para as mulheres, poucos parceitos, ou um único parceiro que não fosse o marido já prejudicava toda uma vida. Homossexuais estavam condenados a um sofrimento ainda maior do que o de hoje, onde pelo menos aceitamos que o desejo existe. O modelo anterior era mais preto no branco; justamente por isso, mais comportamentos eram considerados transgressores.

Apesar de todas as relativizações que fiz, eu acho que estamos decadentes. Eu não veria problema nenhum em subvertermos critérios, consumirmos mais, explorarmos a nossa sexualidade e tantas outras coisas que sairam do armário na nossa época, sem que ao menos tivessemos idéia de que havia um armário. Acho que qualquer coisa teria valido a pena se estivessemos mais felizes. Mas não estamos. Lembro de Durkheim, o pai da sociologia, que dizia que era perigoso quando o indivíduo se sentia apartado do todo. Ou de Bauman, que fala da nossa incapacidade cada vez maior de nos relacionarmos face a face. Por fim, de Boaventura, que nos alerta que a espera passiva pelo futuro não nos preparará para ele. Parece que entramos num ciclo destrutivo em que nada deve permanecer sólido e nos ressentimos por não termos onde segurar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

É difícil dizer a verdade quando todos mentem?

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Meu amigo Alessandro Martins postou o seguinte video com a legenda " É difícil dizer a verdade quando todos mentem":




No final do video fala da importância da psicologia grupal. A leitura que eu fiz do que se passou é diferente. Para mim, esse video mostra a importância da sociedade no nosso comportamento e crenças. O video e a leitura que fazem dele me fazem pensar que uma pitada de sociologia tem nos feito falta na hora de olhar a realidade.

Ao dizer que é difícil dizer a verdade, parece que estamos chamando os sujeitos da experiência de covardes. Que isso mostra que quase todo mundo se acovarda diante dos outros. Daí é fácil concluir que é por isso que o mundo é assim, que as pessoas se deixam vencer por falsos ideais ao invés de serem firmes, etc. Acho que ao invés de acusar os indivíduos de não se comportarem de uma maneira que considerariamos ideal, é mais produtivo se perguntar o que está em jogo na hora em que o sujeito da pesquisa devia responder. A percepção visual dos indivíduos dava uma informação e todas as pessoas à sua volta davam outra. Nesse conflito, o sujeito passou a duvidar de si mesmo, da sua verdade. Por que, afinal, o que é verdade? É apenas um conjunto de crenças socialmente compartilhadas. Mude a época, a sociedade e as regras que a verdade será outra coisa, até mesmo o oposto. Levar em conta o que as pessoas à sua volta dizem na hora de tomar uma decisão não tem nada de covarde ou doentio. Quem não leva em conta o que os outros pensam e fazem na hora de se comportar é que é doente.

Gostamos de pensar no comportamento desviante quando pensamos em multidões equivocadas, no herói que se volta contra o seu próprio grupo quando ele abraça algum ideal destrutivo. Mas isso é a excessão da excessão. No dia a dia - com a família, no trânsito, no ambiente de trabalho, nos nossos momentos de lazer - somos e queremos que os outros sejam sensíveis à necessidade do grupo na hora de se comportar. É isso - mais do que um agregado de pessoas ocupando o mesmo espaço - que nos torna grupo, sociedade.