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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Mais Faulkner: Absalão, Absalão!

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Caro Charlles,

Gostaria de começar este texto dizendo que gostei mais de Absalão, Absalão! do que Luz em Agosto. Porque você disse que seria assim e no edição que eu peguei disse também que essa era a obra prima de Faulkner. Talvez o maior indicativo de que gostei mais de Luz em Agosto, seja o fato de que deixei o Capote de lado para terminá-lo. Desta vez, chegou um ponto do livro em que fui dar uma olhadinha (por isso que sempre leio mais de um livro ao mesmo tempo, preciso dar olhadinhas) e definitivamente não desgrudei do Capote - muito embora racionalmente eu não possa te dizer que o livro estivesse mais chato ou menos interessante em algum momento. Por essas sincronicidades, num dos contos Capote é convidado a falar de quais seriam seus autores preferidos. No meio de vários nome, diz "Faulkner, Luz em Agosto".

Absalão, Absalão! tem muito mais trechos memoráveis do que Luz em Agosto. E tem a capacidade de fazer o leitor avançar na leitura com a sensação de que nada foi dito, de que ainda escondem dele o principal. Era metade do livro e eu achava que a Srta Rosa não tinha chegado lá, e eu queria descobrir que lá era esse. As longas descrições e os paragráfos de mais de uma página não me assustaram, inclusive porque não surgiam a todo momento novos antepassados para confundir, como no Luz em Agosto. E quando a surpresa do livro - estava escrito na capa detrás do livro, junto com o "maior romance de Faulkner" - chegou, eu fui realmente pega de surpresa. Tive que parar de ler por alguns instantes, por tudo o que aquela mudança implicava. É de pirar mesmo. Gosto trajetória circular dos personagens, que de uma maneira ou de outra acabam tendo que se reconciliar ou enfrentar seu passado.

Talvez o grande diferencial entre os dois livros seja Joe. Aquela empatia dolorida que ele causa, pra mim, tornam Luz em Agosto mais atraente. Senti empatia com a Srta Rosa, mas até um certo ponto, porque é difícil entender passividade na nossa época. E, talvez mais importante do que tudo, em nenhum momento consegui odiar Thomas Sutpen. Talvez porque a identificação com os fracos (Joe) seja mais fácil; talvez a gente viva numa época tão dura que seja preciso muita maldade (Sutpen) para nos impressionar. Acredito que essa também devesse ser uma das grandes reviravoltas do livro, o momento em que entendemos as ações de Sutpen e deixamos de vê-lo como um demônio. Desde o início do livro eu o via como um homem solitário, determinado e rude. Ou seja, nada suficiente para despertar uma vontade de vê-lo sofrer e nem de vê-lo triunfar. E a falta de paixão é o pior sentimento que um leitor pode sentir por algum personagem.

Veja bem, estou comparando Faulkner com Faulkner. São dois grandes livros, é como perguntar se chocolate é mais gostoso puro ou na forma de mousse. Mais do que o enredo, o que mais me atrai em Faulkner é a maneira como as histórias se desdobram. No Luz em Agosto as coisas chegavam em direções diferentes, até formarem um correnteza e a acompanhamos enquanto dura, porque depois volta a se separar. Absalão, Absalão! é como um jogo de espelhos, onde vemos diversos reflexos e através deles tentamos adivinhar a verdadeira imagem. A edição que eu peguei (da Nova Fronteira) tem uma cronologia no final, que eu li mas achei meio anti-climax. Seria interessante só depois de muito tempo conseguir reunir as diversas versões e entender depois o que aconteceu. Mas nem todo mundo deve gostar de sair confuso de um livro.

Por hora, darei um tempo no opressivo e decadente ambiente sulista pós-guerra dos EUA. Depois de dois Faulkner seguidos, estou sentindo falta de leveza. Quando eu precisar refletir de novo, qual você me recomendaria?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Luz em Agosto

3 comentaram
A primeira parte do livro Luz em Agosto, de Faulkner, é como acompanhar a formação de nuvens de tempestade. Começamos o livro com a caminhada de uma mulher grávida e a história se interrompe num ponto. Depois somos apresentados a outro personagem, e depois outro, e mais outro, a ponto de você se perguntar se aquele desfile de pessoas levará à algum lugar. Até que você percebe que a trajetória de todos se une e se mistura num só acontecimento, para a história se centralizar num personagem específico - Joe. E depisi que isso acontece, o leitor não consegue abandonar o livro até descobrir o fim todos os que apresentados no início da trama.

Imagino que um dos maiores problemas ao escrever uma história seja o da empatia. Logo no início do livro, o leitor deve se apaixonar por um dos personagens principais, senão abandonará a leitura. Sem empatia, de nada adiantará lhe dar um final feliz ou exterminar toda a família do herói. Cada autor resolve esse problema de uma maneira particular. Para mim é muito claro que Dostoiévski leva pelo menos a metade do livro apenas apresentando os personagens. Ok, Crime e Castigo começa logo com o assassinato. Mas depois a história esfria. Os personagens no início dos livros de Dostoiésvki ficam muito tempo andando, esquentando as mãos nos samovares, conversando com padres, reunindo a família ou simplesmente se conhecendo. É preciso, por parte do leitor de Dostoiévski, uma certa boa vontade; vale a pena, mas a história demora pra pegar no tranco. Faulkner, ao esconder do leitor qual personagem seguiremos, cria um suspense interessante e nos envolve com cada um. Outro recurso que cumpre a mesma função é a maneira como ele mistura passado, presente e futuro durante a narrativa.

Não é um livro difícil de ler por sua linguagem e forma, embora a necessidade de traçar a genealogia de tanta gente às vezes se torne cansativo e confuso. Mas é um livro exigente, incômodo. Joe sofre muito e nós sofremos junto. É um personagem que se esforça tanto e a única coisa que consegue é manter-se vivo. Como falso-branco ou branco-negro, ele expõe um preconceito racial tão grande que chega a ser difícil de entender. É como se o sangue negro fosse a personificação do Mal. Essa hereditariedade misteriosa, essa maldade que vem de berço, funciona como um estigma e determina toda a trajetória de Joe. Ele sente necessidade de se declarar, como quem busca algum tipo de perdão; essa fraqueza o torna algoz de si mesmo, que não é capaz de pedir para os outros ignorarem o que ele mesmo recorda todo o tempo. Joe sofre de uma perseguição sem razão e sem escapatória muito pior do que a kafkiana, por ser completa e íntima.

No livro é muito clara a barreira fundamental entre um ser humano e outro, tão grande que nem ao menos é expressa. Todos os personagens de Faulkner são solitários, de uma solidão profunda, permanente e dolorida. A relação entre pais e filhos apenas coloca sobre os últimos o peso da hereditariedade e a impossibilidade de superação individual. Os que tentam apelar para a religião se tornam loucos, agressivos e - por consequencia - ainda mais solitários. A única excessão do livro é justamente a mulher grávida do início, Lena. Ela é a única que parece preservar uma certa pureza, uma crença no ser humano e uma fé tão grande que leva à duvidas sobre sua capacidade de julgamento - e no fim do livro, nos detalhes, ela mostra que sabe muito bem o que está fazendo. É com ela que o livro inicia e com ela que o livro termina, fechando o ciclo. Com isso o autor parece nos indicar que aquelas histórias foram apenas radiografias de muitas outras histórias, de sofrimentos e heróis (ou anti-heróis) anônimos que existem em todos os lugares.