Eu cheguei ao
Grandes Esperanças de Charles Dickens através do
post do Milton, e principalmente por causa dos comentários da Nikelen. Diante do que eles disseram, me sinto tão obtusa e constrangida quanto Joe Gargery, o ferreiro ignorante e amoroso. Nada tenho a declarar sobre o autor estar abandonado e qual legado ele nos deixou; se fosse escrever sobre a importância de Dickens como primeira celebridade literária, teria que copiar os comentários da
Nikelen. A crítica que tenho a fazer sobre o livro é apenas um entusiasmado
Estou adorando.
O livro me pegou de jeito, como pegou as pessoas que o leram na época sua época. Termino cada capítulo ansiosa pelo seguinte. Rio das muitas ironias do livro, me comovo com os momentos emotivos, me indigno com as injustiças. Ou seja, sou uma leitora-joguete, o autor tem me conduzido como quer. Pip tem a trajetória clássica do herói, a mesma tradição que também abarca Luke Skywalker e Harry Potter: cresce como orfão e mais tarde tem acesso a todas as oportunidades que sonhava antes. Na sua passagem do mundo pobre para o mundo rico, vemos apenas sorte, talvez destino. São mundos imensos, injustos e inconciliáveis. Mas tudo é colocado em meio a uma história tão boa que...
Este trecho, de Joe Gargery, exemplifica o que acabei de dizer. É a despedida do primeiro encontro entre ele e Pip, depois que o último começou a ser educado como cavalheiro. Antes única fonte de carinho e amizade de Pip, Joe passa a representar um passado constrangedor. Esse momento representa uma mistura tão grande de sentimentos: imaturidade, gratidão, amor, embaraço, distância social. E termina profundo e comovente, com as palavras de Joe:
Pip, velho amigo, a vida é feita de despedidas. Um é ferreiro, o outro é funileiro, o outro é ourives e alguém é caldeireiro. Essas divisões sempre vão existir, e devem ser tratadas assim como são. Se saiu alguma coisa errada hoje, a culpa foi minha. Tu e eu não podemos ficar juntos em Londres. Nem em lugar nenhum, a não ser na intimidade, no conhecimento e na compreensão dos amigos. Não é que eu seja orgulhoso, mas é que eu quero agir certo, e não quero me ver mais nestas roupas. Eu estou errado nestas roupas. Eu estou errado fora da ferraria, da cozinha ou do nosso pântano. Tu não perceberias em mim nem a metade do que percebeste se me visse com as minhas roupas de ferreiro, com o martelo na mão ou mesmo com o cachimbo. Se algum dia quisesses me ver e fosses me espiar pela janela da ferraria e visses Joe, o ferreiro, na velha bigorna, no velho avental chamuscado, grudado no velho ofício, com certeza não perceberias tantos defeitos em mim. Eu sou muito ignorante, mas espero ter feito com isso alguma coisa certa. E Deus te abençoe, velho Pip, querido camarada. Deus te abençoe!
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