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domingo, 13 de novembro de 2011

Algo está muito errado. Ou muito certo.

Quando Bauman fala da liquidez das relações atuais, eu me vejo nelas. Quando a internet ainda começava a se popularizar, eu já estava aqui. Já deixei de lado muitas amizades virtuais com um simples apertar de botão, porque de alguma forma eles disseram algo que eu não gostei. Fiz sem o menor medo, e essas pessoas foram enterradas pelas muitas outras pessoas com conheci depois. Não conheço meus vizinhos, não tenho intimidade com muitas das pessoas que me encontram e sabem o meu nome. Chego no computador e me torno a Caminhante, e aqui me comporto diferente. Aqui, sou mais aberta e extrovertida do que no mundo real. Os que me lêem pela internet sabem mais da minha vida que minha própria família.

Mas o que dizer das amizades verdadeiras que fiz aqui? Das viagens com o único objetivo de conhecer amigos virtuais, pessoas de quem eu já gostava muito antes de olhar nos olhos. Acompanho virtualmente a vida desses amigos há anos, estou a par de suas mudanças sem que eles tenham que me dizer nada. Graças à internet, me relaciono com pessoas que jamais fariam parte do meu mundo, pessoas com estilos de vida tão diferentes que provavelmente não trocaríamos uma única palavra no mundo real. Quando ninguém à minha volta compartilhava dos meus gostos, na internet eu sempre encontrei quem pudesse trocar idéias comigo. Coisas que eu achava que me tornavam única ou que me pareciam incompartilháveis passaram a ser comuns. Aqui, deixei muitos complexos de lado, aprendi coisas novas e encontro calor.

As relações humanas nunca mais serão as mesmas. Bauman está certo em dizer que perdemos em constância, que as infinitas opções nos confundem, que perdemos a capacidade de nos relacionar com o que está próximo. Mas no meio de tudo isso - estranhamente - há constância, escolhas e relacionamentos.

5 comentários:

  1. De minha parte, não li Balman (gostaria) mas tenho recebido mais do que perdido com minha vida virtual: tenho conhecido novas ideias e pontos de vista, trocado informações, me relacionado com gente boa que jamais teria conhecido de outra forma. Claro que rola um tombo aqui e ali, mais do que normal, dada a quantidade. E com relação à "vida real", toda essa bagagem nova tem me ajudado também, pois são conceitos e aprendizados que passam a fazer parte de mim.

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  2. Eu também mais ganhei do que perdi. Mas pode ser que eu seja anormal mesmo.

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  3. Eu confesso que eu não sinto essa questão de não conseguir me relacionar com o que está próximo. Mas eu acho que manter o blog até me aproximou mais de algumas pessoas que eu conhecia.

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  4. Penso muito sobre isso, Fernanda. Julgo que a questão levantada por Bauman é que a fáscia escrita de uma pessoa é totalmente diferente de sua fáscia social cotidiana. No universo do entendimento virtual, é inconcebível que um buzine para o outro, que se exerça os pré-julgamentos tão comuns de que o outro é o "desinteressante", o "que jamais nos prontificaremos a dirgir-lhe a palavra". Não sei se já contei isso: trabalhei por uns tempos com uma antiga colega do curso de veterinária. Ao final de uma semana de viagens juntos, ela me confessou que tinha um terrível repúdio contra mim. Ela me via ao inverso do que eu sou: me via alienado, um cara que não se importava com nada, com uma quantidade limitada de interesses. Jamais teria adivinhado, p. ex._ ela disse_, de que eu gostasse de jazz.

    Isso foi um choque e uma lição enorme sobre como eu mesmo vejo de forma equivocada muitas pessoas. Principalmente onde moro, e lidando com pessoas do campo, tive a didática surpresa de ver em senhores broncos o mais intenso nó de humanismo e serenidade. Talvez a crítica de Bauman esteja aí, nesse caráter assustador que vc fala no início do post, sobre desfazer amizades só por mínimas decepções; parece que o ciberespaço torna os extremos sentimentais bastante levianos: amamos exacerbadamente e odiamos da mesma maneira, e o denominador sempre é o conforto de o fazermos à distância, com a asséptica ausência de contato, de apertos de mão.

    Muitas vezes a intimidade que temos pela net não exclui que, uma vez juntos cara a cara, não tenhamos a mínima coisa para dizermos um ao outro.

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  5. Anônimo12:10 PM

    "Graças à internet, me relaciono com pessoas que jamais fariam parte do meu mundo, pessoas com estilos de vida tão diferentes que provavelmente não trocaríamos uma única palavra no mundo real. Quando ninguém à minha volta compartilhava dos meus gostos, na internet eu sempre encontrei quem pudesse trocar idéias comigo. Coisas que eu achava que me tornavam única ou que me pareciam incompartilháveis passaram a ser comuns. Aqui, deixei muitos complexos de lado, aprendi coisas novas e encontro calor"
    Nossa, é como se vc tivesse tirado as palavras de minha boca. E tenho certeza que várias outras pessoas se sentem assim.

    Sinceramente, por um lado, pra mim a internet é um refúgio. Acho que hoje a pessoa de que mais gosto, no âmbito da amizade, é um cara que conheço pela internet (embora um dia ele já tenha vindo pra minha cidade com a irmã e eu os tenha conhecido pessoalmente e os acompanhado por Sampa). Pelo facebook e pelos blogs, qdo entro em contato com as pessoas virtuais, consigo apaziguar uma parte de mim que não encontra pessoas da vida real para conversar sobre certos assuntos. É bom encontrar gente que gosta das mesmas coisas que vc e que é, tbm, interessante e bacana.

    Por outro lado, a distância que existe no meio virtual me frustra. Porque vc se relacionar por face, por e-mail, por blogs, etc, é diferente de olhar a pessoa no olho, de escutar a voz, de se encontrar, de rir junto ao vivo e a cores. Pelo face e demais cantos da internet editamos nossa vida, nossa fala. É mais fácil de se desvencilhar das pessoas - "nossa, esse assunto tá chato, como esse cara tá chato hoje, vou inventar uma desculpa pra sair do chat". Na vida real não tem isso, ou pelo menos é mais difícil. Vc tem que aguentar a chatice dos outros. Entretanto, o calor humano é maior, ainda que não haja tanta afinidade. E eu sinto muita falta do encontro ao vivo e a cores. Mas daí qdo penso que é no meio real que o dilema do ouriço se faz mais pungente, que se põe mais à prova, ó céus, da vontade de ficar só na internet mesmo.

    Ai, ai, por que viver é tão complicado, hein?

    Um abraço,
    P.

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