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quarta-feira, 13 de julho de 2011

História sem régua

Minha sogra era professora primária e era dia 26 de abril quando estavamos almoçando lá. Ela perguntou à neta, de 14 anos, que data importante era aquela. 26 de abril? Eu sabia que o descobrimento do Brasil era 22 de abril, e pra existir um 26 de abril, concluí que aquela era a data da celebração da primeira missa. A sobrinha do Luiz não fez todos esses cálculos, e começou a chutar datas aleatórias - "Dia da independência do Brasil? Dia da descolonização do Brasil?" Descolonização? Minha sogra ficava doida. Contou que era o dia da primeira missa e perguntou quem a havia rezado. Outra negativa. Todos os presentes - eu, o Luiz, minha cunhada e meu sogro - sabiam as respostas. Depois o Luiz me explicou que a mãe dele sempre fica louca da vida em perceber que a neta é muito ruim em datas.

Eu não soube o que pensar. Não sei o quão importante é lembrar das datas, se faz mesmo diferença saber que foi em 1888 que foi assinada a Lei Áurea e outros tantos números que tenho guardados na minha cabeça. Acho que todos já recebemos um e-mail dizendo que há anos atrás as questões eram mais rigorosas, que o aluno de hoje mal precisa pensar para responder uma prova. Desse ponto de vista, o fato de não lembrar das datas seria o indício de algo maior, de que os alunos de hoje aprendem menos do que o básico. A impressão que eu tenho é de que certas discussões acadêmicas acabam chegando de maneira estranha - talvez o termo certo seja empobrecida - às salas de aula. Hoje a História, na academia, tem procurado abandonar o modelo cronológico que a dominou durante séculos, o que mesmo que me foi ensinado: o da história progressiva, um grande modelo explicativo da humanidade. Aquela história que estudava as Eras, que se preocupava em dizer se foi a Revolução Francesa ou a Primeira Guerra Mundial que nos fez deixar de ser Modernos para nos tornarmos Contemporâneos. Para esse modelo, era essencial conhecer as datas.

Filhos dessa auto-crítica histórica estão abordagens muito interessantes, que trazem uma maneira nova de olhar o que já parecia explicado, ou que lançam questões inovadoras sobre o passado. Ao invés da história dos grandes estadistas, hoje brotam livros que falam das pessoas comuns, de como viviam e pensavam aqueles cujos nomes ninguém nunca se interessou em saber. Nem todo recorte precisa ser feito por países, reinados ou guerras; podemos nos perguntar da concepção de morte, amor, higiene, infância e tudo o que faz/fez parte das nossas vidas. É uma história que nos torna mais próximos dos que nem conhecemos, que nos mostra que mentalidades ainda resistem, o que mudou, o que é radicalmente diferente da maneira como gostamos de nos entender. Meu amor pela história se renova quando leio livros assim. Quando falamos em mudanças de mentalidade, a data se torna uma questão menor. Podemos acompanhar o movimento e dizer quando ele parece ter se estabelecido, mas não é possível afirmar quando, onde e nem porquê.

Não me arrisco a dizer se essa nova geração não sabe a data da Proclamação da República (15 de novembro) mas sabe o que ela significa, ou se nem é importante saber o que é Proclamação. Sei que aos olhos mais cronológicos, é como se a história estivesse se desfazendo.

7 comentários:

  1. Sempre achei muito chata e nada produtiva essa coisa de ficar decorando datas. Até pq nunca fui boa com elas. Eu jamais saberia o dia da primeira missa. E tb, missa pra mim nem é importante mesmo. hehehehe

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  2. Outra pista importante é que minha sogra é super católica, isso me ajudou a adivinhar!

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  3. Belo post, Fernanda. Eu sou de uma geração que estudou datas na escola e as desprezou na faculdade. A diferença, porém, é que há aí uma sutileza que poucos professores e alunos parecem querer ver. No ensino escolar do passado as datas eram o que havia de mais importante. Decorá-las era saber a história toda. Ora, é claro que isso não tem mais sentido. É mais importante conhecer a experiência histórica no tempo. O que precisa ser dito é que: o fato de as datas não serem mais o MAIS importante, não as torna completamente irrelevantes. Não estou falando do dia exato ou da hora exata de um acontecimento X. Mas os anos localizam-nos em uma das importantes dimensões do tempo.
    Dizer idade moderna dimensiona algumas coisas. Dizer século XVII, dimensiona outras (e ele não foi, de forma alguma a mesma coisa que o XVI ou o XVIII). Dizer 1620 (data em que o Mayflower chegou a América) não é o mesmo que dizer 1680 (quando se criam os primeiros assentamentos mais ao sul na costa leste norte-americana). Como não seria o mesmo falar em 1920 e 1980. Essas diferenças parecem mais claras quando falamos do último século, mas também existem para os anteriores.
    Não é uma defesa do ensino das datas, mas o fato é que elas não são irrelevantes para compreender o mundo em que vivemos. E acho sim que os estudantes perdem muito com isso. Perdem por não saber dimensionar o tempo. Perdem por jogar sob o termo "antigamente" toda a memória histórica da humanidade.
    Uma das melhores definições de história que conheço é que ela é o estudo da experiência humana no tempo. Claro que a experiência humana é o mais importante, mas no tempo, no tempo.

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  4. Acho engraçada essa postura de ficar decorando datas, porque se bem me lembro todo mundo sabia as datas mas poucos entendiam qual o significado daquilo. Essa decoreba toda servia muito bem pra transformar história em disciplina chatissíma.

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  5. Faço minhas as palavras da Nikelen.

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  6. Como você continua com a pirraça de não liberar os comentários no seu outro blog, eu continuo com a minha pirraça de vir aqui comentar o que vi lá. "Coração": textaço!!!

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  7. A Véia do Blog10:27 AM

    Faço minhas as palavras de todos vocês.

    Meus filhos estudaram em uma escola de metodo socio-construtivismo, onde sim, tinham datas,mas apenas citadas como complemento. Eles vivenciavam a historia através de videos, visita a museus, visitas de profissionais e reprodução da história nas aulas de artes.

    Somente assim aprendem e nunca mais esquecem.

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